A vereadora Ana Nice (PT), de 51 anos, entrou para a história nesta terça-feira (19) ao se tornar a primeira mulher negra a presidir a Câmara Municipal de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Sua posse ocorreu em meio a uma das maiores crises políticas da cidade, após a deflagração da Operação Estafeta, da Polícia Federal, que revelou um esquema de corrupção na prefeitura e levou ao afastamento do então presidente da Câmara, Danilo Lima (Podemos), e do prefeito Marcelo Lima (Podemos).
Natural de Espinosa (MG), cidade de pouco mais de 30 mil habitantes, Ana Nice é filha de lavradores e trabalhou desde a infância nas plantações de algodão. Perdeu a mãe aos cinco anos e o pai aos 14, mudando-se em 1988 para São Bernardo, onde construiu sua vida. Antes de ingressar na política, atuou como metalúrgica na empresa Panex, no setor de utensílios domésticos, e chegou a ser representante sindical no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Formada em História pela Fundação Santo André e com especialização em Economia do Trabalho e Sindicalismo pela Unicamp, a parlamentar iniciou sua trajetória política em 2016, quando se tornou a primeira mulher negra eleita para a Câmara. Naquele mandato, também era a única mulher entre os 28 vereadores. Em 2024, obteve votação recorde, com 6.205 votos, tornando-se a vereadora mais votada da história do município.
Ao longo de seus três mandatos, Ana Nice se destacou pela defesa dos direitos humanos, pelo combate ao racismo e pela promoção da igualdade racial e de gênero.
Primeira sessão sob sua gestão
Na sessão desta terça-feira (19), já sob sua presidência, vereadores protocolaram pedidos para suspender os salários dos parlamentares afastados, no valor de R$ 19.960,05 mensais, além de requerer acesso a contratos investigados pela Polícia Federal. O líder do governo, vereador Julinho Fuzari, também apresentou pedido para abertura de uma CPI, contando com 19 assinaturas, com o objetivo de investigar as suspeitas de corrupção.
O esquema de corrupção
Segundo denúncia do Ministério Público, o esquema investigado teve início em 2022 e envolvia vereadores, secretários, servidores e empresários. A organização criminosa fraudava contratos da Prefeitura e da Fundação ABC para desviar recursos públicos.
Foram denunciados, entre outros, o vereador Danilo Lima Ramos, primo do prefeito afastado, o suplente Ary José de Oliveira e o ex-funcionário da Alesp Paulo Iran, apontado como operador financeiro.
O MP estima que o desvio tenha causado prejuízo de até R$ 16,9 milhões aos cofres municipais. Como medida preventiva, foi solicitado o bloqueio e sequestro de bens dos investigados para garantir o ressarcimento ao erário e o pagamento de eventuais multas.

Marco histórico e desafio político
Enquanto a cidade enfrenta uma crise institucional, a ascensão de Ana Nice ao comando da Câmara é vista como um marco histórico e um desafio de liderança. Ela assume a missão de conduzir a Casa Legislativa em um momento turbulento, equilibrando a necessidade de investigar as denúncias de corrupção com a de restabelecer a confiança da população no poder público.
