Anulação Concurso Professora Rascismo USP

USP anula concurso após aprovação de professora negra; Érica Bispo denuncia racismo e falta de direito à defesa

A professora e pesquisadora Érica Bispo, de 45 anos, acusa a Universidade de São Paulo (USP) de práticas discriminatórias e de graves falhas processuais após a anulação do concurso público em que foi aprovada em primeiro lugar para a vaga de docente em Literaturas Africanas e Língua Portuguesa, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).

Única candidata negra a realizar as provas — já que outros dois inscritos autodeclarados pretos não compareceram —, Érica relata que o processo foi alvo de contestação por parte de seis concorrentes brancos, que apresentaram recurso ao Conselho Universitário, alegando suspeição da banca e suposto favorecimento.

Apesar de a FFLCH ter homologado o resultado e iniciado o processo de contratação, o Conselho Universitário — órgão máximo da instituição — decidiu anular o concurso, sustentando haver “indícios de relações de proximidade” entre a candidata e duas professoras da banca examinadora. A decisão se baseou em publicações nas redes sociais com fotos de eventos acadêmicos e expressões de amizade nas legendas.

A professora rebate a interpretação e afirma que as imagens foram registradas em congressos e encontros públicos da área de Literaturas Africanas, no Brasil e no exterior. “Essas fotos não configuram amizade íntima. A procuradoria da USP transformou registros profissionais e uma legenda como ‘entre amigos é muito bom’ em prova definitiva de proximidade pessoal”, declarou.

Segundo Érica, todos os cinco membros da banca atribuíram a ela notas altas e consistentes, reconhecendo sua produção acadêmica e desempenho durante o certame. Ela considera que a decisão do Conselho foi tomada sem base técnica e reflete um viés discriminatório. “O concurso foi anulado por um indício superficial, ignorando completamente o mérito do meu trabalho e o resultado legítimo”, afirmou.

A pesquisadora também denuncia que não teve garantido o direito à ampla defesa no processo administrativo. De acordo com ela, a manifestação técnica elaborada por seus advogados não chegou a ser anexada aos autos antes do julgamento. “O Conselho votou sem sequer ter lido minha defesa. A USP aceitou acusações frágeis e não me permitiu me defender adequadamente”, relatou.

Em nota, a FFLCH confirmou que não possui autonomia para reverter a decisão, pois esta partiu do Conselho Universitário, e orientou que eventuais contestações sejam feitas pela via judicial. O concurso, segundo a instituição, foi reaberto e as inscrições estão novamente abertas.

A USP, por sua vez, afirmou que o Conselho Universitário entendeu haver indícios de proximidade entre a candidata e membros da banca, fundamentando-se em publicações nas redes sociais. A universidade reforçou que o caso não cabe mais à FFLCH e que qualquer reversão dependerá de decisão judicial.

Para Érica Bispo, a anulação é um símbolo de como o racismo institucional ainda se manifesta em ambientes acadêmicos. “Não é apenas sobre o meu concurso. É sobre o quanto a presença de uma mulher preta em espaços de poder ainda causa incômodo”, disse. Ela afirma que recorrerá à Justiça para reaver o resultado e garantir o direito de exercer o cargo para o qual foi aprovada.