Mensagens interceptadas pela Polícia Civil de São Paulo revelaram como integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) monitoravam detalhadamente a rotina do coordenador de presídios Roberto Medina e do promotor de Justiça Lincoln Gakiya, ambos jurados de morte pela facção. O conteúdo faz parte das investigações que embasaram a Operação Recon, deflagrada na sexta-feira (24), que desarticulou parte do esquema criminoso.
Durante a análise do celular de Vítor Hugo da Silva, apontado como membro da célula de elite da facção, os investigadores descobriram vídeos, fotos e mensagens que comprovam a vigilância sobre as autoridades. Em uma das conversas, Vítor Hugo alerta um comparsa sobre o risco de ser flagrado por câmeras ao tentar registrar o local:
“O que acontece, amigo, esses carros aí que eu te mandei estão todos na frente. Se eu tirar foto, tá cheio de câmera. Estou passando a pé, mano, entendeu? E outra, se eu fizer um vídeo vai ficar muito na cara, tá cheio de câmera.”
A troca de mensagens, acompanhada de imagens do entorno da casa de Medina e de placas de veículos oficiais, mostra que os criminosos utilizavam Google Maps e GPS para traçar trajetos e pontos de referência — incluindo rotatórias e vias usadas por Medina em seus deslocamentos diários.
Segundo a investigação, o grupo responsável pelo monitoramento fazia parte da chamada Restrita Tática, divisão interna do PCC formada por criminosos altamente treinados e com estrutura compartimentada. Essa célula, segundo o Ministério Público, tem como função mapear alvos e preparar atentados contra autoridades envolvidas no combate à facção.
Durante a operação, a polícia prendeu Wellison Rodrigo Bispo de Almeida, conhecido como Corinthinha, acusado de vigiar Medina a mando da organização criminosa. Ele havia alugado uma chácara em Presidente Bernardes, a cerca de 50 km do local onde o coordenador de presídios vive. A defesa dele não foi localizada.
Outro suspeito, Sérgio Garcia da Silva, o Messi, foi preso em setembro com drogas e um celular escondido sob o travesseiro. No aparelho, havia prints de rotas percorridas por Gakiya e conversas que confirmam o envolvimento no plano de execução. A polícia também descobriu que o grupo havia alugado uma casa de luxo a menos de 1 km da residência do promotor, usada como base para vigiar seus deslocamentos e reuniões.
O delegado responsável pelo caso explicou que os criminosos estavam na fase de levantamento de informações, mas que o material obtido poderia ser usado em uma etapa posterior, de ataque:
“Eles coletavam informações com equipes locais, que conhecem o terreno, e depois repassavam os dados a grupos especializados que executam as ordens da facção”, afirmou.
Os mandados de busca e apreensão foram cumpridos em sete cidades do interior paulista — incluindo Presidente Prudente, Martinópolis, Pirapozinho e Álvares Machado — totalizando 25 ordens judiciais. Além disso, a Justiça determinou a quebra dos sigilos telefônico e telemático dos investigados para rastrear outros possíveis envolvidos.
Embora a polícia ainda não tenha confirmado uma ligação direta entre este plano e o assassinato do ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes, morto em setembro, chama a atenção o fato de que o período de monitoramento de Gakiya e Medina coincide com o início da vigilância de Fontes, também executado por ordem do PCC.
Considerado um dos principais inimigos da facção, Lincoln Gakiya é promotor do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e vive sob proteção 24 horas por causa das ameaças constantes. Ele afirmou que a descoberta das mensagens comprova a amplitude e a ousadia da facção:
“É mais uma demonstração de que o PCC atua de forma articulada e planejada. São ordens diretas da cúpula, transmitidas por dentro dos presídios, inclusive com uso de linguagem codificada”, destacou o promotor.
As investigações prosseguem para identificar quem dentro da hierarquia do PCC autorizou o plano e quais membros ainda estão em campo. Para o Ministério Público, o caso expõe a sofisticação da estrutura de espionagem do crime organizado, que vem adaptando estratégias de inteligência militar para escapar da vigilância do Estado.
