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Ministério Público denuncia deputado Lucas Bove por agressões, ameaças e descumprimento de medidas contra Cíntia Chagas

O Ministério Público de São Paulo denunciou o deputado estadual Lucas Diez Bove (PL) por crimes de perseguição, violência física, psicológica e ameaça contra sua ex-esposa, a influenciadora digital Cíntia Chagas, que acumula mais de 7,6 milhões de seguidores nas redes sociais. A Promotoria também pediu à Justiça a prisão preventiva do parlamentar, alegando que ele descumpriu reiteradamente medidas protetivas determinadas pela Justiça.

Segundo o documento encaminhado à Vara de Violência Doméstica, Bove manteve, ao longo de mais de dois anos de relacionamento, comportamentos agressivos e intimidatórios, marcados por episódios de humilhação e violência física. A denúncia descreve cenas em que o deputado, enquanto fumava maconha, manuseava uma arma de fogo apontando-a para a ex-companheira. Em outro episódio, teria arremessado uma faca em direção à perna de Cíntia, além de ameaçá-la de morte caso descobrisse uma suposta traição.

O texto do MP relata ainda que o deputado chegou a afirmar que “mandaria o segurança esconder o corpo” da vítima, caso concretizasse as ameaças. Há registros de beliscões dolorosos e apertos nos seios da mulher, inclusive diante de terceiros, em situações descritas pela Promotoria como “sadismo e dominação simbólica”.

Mesmo após o fim do relacionamento, Bove teria continuado a perseguir a ex-esposa, violando medidas protetivas impostas pela Justiça. O Ministério Público afirma que o deputado publicou mensagens ofensivas e indiretas nas redes sociais, citando o nome de Cíntia e o processo judicial — o que configura desobediência judicial e revitimização pública.

De acordo com a denúncia, a influenciadora precisou recorrer diversas vezes à Justiça para reiterar os pedidos de proteção e denunciar as violações. O MP sustenta que Bove “demonstra desprezo pelas decisões judiciais e pela integridade da vítima”, motivo pelo qual a prisão preventiva seria a única medida capaz de conter a escalada de violência.

Em nota, Cíntia Chagas afirmou ter recebido a decisão com “serenidade e inabalável confiança na Justiça”, acrescentando que “é moralmente inaceitável que agressores de mulheres permaneçam em cargos de poder”. A advogada e ex-promotora Gabriela Manssur, que representa a influenciadora, classificou a denúncia como “um marco na defesa das mulheres e na responsabilização de quem usa o poder para oprimir”.

O caso ganhou força após a conclusão do inquérito policial, em setembro, que reuniu provas de ameaças e mensagens de controle. Segundo o relatório da delegada Dannyella Gomes Pinheiro, o deputado tentou manipular a ex-esposa a assinar contratos de separação considerados abusivos e chegou a ameaçar “acabar com sua carreira” caso não aceitasse suas condições. Testemunhas confirmaram o padrão de comportamento possessivo e relataram que o parlamentar utilizava intermediários e advogados para se aproximar da vítima, mesmo após a separação.

Apesar de o inquérito não ter indiciado Bove por lesão corporal, a Polícia Civil ressaltou que o conjunto de provas demonstra violência psicológica grave e continuada, enquadrada nos artigos 147-A e 147-B do Código Penal e na Lei Maria da Penha.

A defesa do deputado classificou o pedido de prisão como “descabido e sem fundamentos”, afirmando que “não há motivos para adoção de medida extrema”. Os advogados ainda acusaram Cíntia de “divulgar informações sigilosas e distorcer fatos”, alegando que ela também descumpriu decisão judicial que a proibia de comentar o caso.

O Ministério Público reforçou, contudo, que o histórico de descumprimentos e a reincidência de ameaças tornam inviável qualquer medida alternativa. A Promotoria também solicitou à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) que adote providências disciplinares contra Bove, lembrando que o Conselho de Ética havia arquivado uma denúncia semelhante em agosto, antes da nova ação penal.

O caso expõe uma tensão crescente entre autoridades políticas e a aplicação da Lei Maria da Penha, reacendendo o debate sobre a responsabilização de agentes públicos acusados de violência doméstica e sobre os limites do foro privilegiado em crimes de natureza pessoal.