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Capivaras do Rio Pinheiros lutam diariamente pela vida em meio ao lixo e descaso ambiental

As capivaras que vivem às margens do Rio Pinheiros, em São Paulo, enfrentam um cenário diário de sofrimento causado pelo lixo. Sacolas, cordas, mochilas e até roupas íntimas ficam presos em seus corpos, provocando ferimentos e restringindo seus movimentos. A cena, que tem chocado ciclistas e frequentadores da ciclovia, é apenas a ponta de um problema muito maior de poluição e abandono ambiental.

O Projeto CAPA (Centro de Apoio e Proteção Animal), ONG responsável pelo monitoramento da fauna ao longo dos 25 quilômetros do rio, acompanha cerca de 120 capivaras e realiza resgates quase todos os dias. Segundo a presidente da entidade, Mariana Aidar, o tipo de resíduo mais perigoso é a fita de polietileno, usada para amarrar materiais de construção. Por ser extremamente rígida, ela corta a pele dos animais e continua presa conforme eles crescem, provocando ferimentos profundos.

A ONG já encontrou diversos objetos inusitados presos aos bichos: sutiãs, calcinhas, cuecas, biquínis, bonés, bolsas e até mochilas. “É surreal. Elas nadam e acabam esbarrando em tudo. A cada dia é uma surpresa triste”, desabafa Mariana. A situação piora após períodos de chuva, quando o volume de detritos aumenta, mas o problema também persiste em dias secos, revelando o descarte irregular e contínuo nas margens.

Para tentar amenizar os danos, dez voluntários — entre biólogas, veterinárias e auxiliares — percorrem diariamente a área monitorando e cuidando dos animais. Na maioria dos casos, os atendimentos são feitos no local, mas alguns necessitam de internação e cirurgias no Centro de Manejo e Conservação de Fauna Silvestre (CeMaCAS).

Além do lixo, os atropelamentos também representam uma ameaça. Muitas capivaras são atingidas dentro da ciclovia ou na Marginal Pinheiros, o que, segundo a ONG, acaba funcionando como uma forma trágica de “controle natural” da população. Para reduzir os acidentes, o CAPA instalou barreiras e fechou 90% das saídas que ligam o rio às vias, graças a doações de apoiadores.

A ONG reforça que a população não deve tentar ajudar os animais por conta própria. Além de ser crime ambiental, a ação pode colocar pessoas em risco e atrapalhar o resgate profissional. “As capivaras se assustam e podem atacar quando estressadas”, alerta Mariana.

Mesmo com avanços pontuais na despoluição, o Rio Pinheiros ainda é classificado como de qualidade péssima, segundo relatório da Fundação SOS Mata Atlântica. A poluição afeta diretamente a biodiversidade e compromete a saúde pública, revelando que, apesar das promessas de revitalização, o rio continua sendo um retrato preocupante da degradação ambiental urbana em São Paulo.