Desigualdade São Paulo

De baixo para cima: 20 anos depois, o retrato da desigualdade entre Paraisópolis e Morumbi ainda não mudou

Vinte anos depois da icônica fotografia que retratou o abismo social entre Paraisópolis e o Morumbi, a desigualdade entre os dois mundos separados por um muro continua sendo um retrato vivo de São Paulo. A imagem de 2004, feita pelo fotógrafo Tuca Vieira, mostrou o contraste entre um prédio de luxo, com piscina em cada andar, e a favela espremida ao lado — e se tornou símbolo global das contradições brasileiras.

Hoje, o olhar se inverte: “de baixo para cima”, moradores de Paraisópolis refletem sobre a mesma cena que, apesar de histórica, ainda é atual. “A foto fala mais para fora do que para dentro. Quem vive aqui sente, mas naturaliza a desigualdade”, explica Geovan Oliveira, da União dos Moradores de Paraisópolis. Ele usa a metáfora do sapo na panela: quem está dentro da água quente não percebe o aquecimento lento, assim como quem vive na favela se adapta à desigualdade cotidiana.

O prédio Penthouse, símbolo de luxo dos anos 1980, hoje exibe sinais de decadência: quatro dos 13 apartamentos estão vazios, as dívidas se acumulam, e o condomínio, de R$ 5,2 mil, é alto demais para os poucos moradores restantes. Enquanto isso, Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo, abriga mais de 58 mil pessoas, com escolas, empreendimentos locais e crescente formalização de negócios, mas ainda sofre com a falta de infraestrutura e serviços básicos.

As amigas Liu, Mercedes e Rosemeire, que vivem na comunidade desde os anos 1990, dizem que a vida melhorou — há mais acesso a alimentação, lazer e tecnologia —, mas que as diferenças permanecem. “O prédio não incomoda, quem se incomoda é quem não quer ver a favela”, diz Mercedes.

De acordo com dados do IBGE, o Brasil registrou em 2024 a menor desigualdade de renda da série histórica, com Índice de Gini de 0,506. Porém, o Relatório Global de Riqueza 2025, do banco UBS, coloca o país novamente entre os mais desiguais do mundo, com índice de 0,82. Os números mostram que, mesmo com avanços econômicos, os dois mundos — o da piscina e o do barraco — ainda não se encontraram.

O fotógrafo Tuca Vieira afirma que, apesar da notoriedade da imagem, ela também gerou um problema: a banalização do olhar distante. “Com drones, tudo ficou fácil, bonito e distante da realidade. É preciso voltar ao chão, conversar com as pessoas, olhar de perto”, diz ele.

A nova perspectiva, captada por estudantes e fotógrafos locais, mostra o Penthouse de baixo, imponente e cercado pela vitalidade da favela. Essa inversão de ângulo revela o que os números não captam: o orgulho, a resistência e o senso de pertencimento dos moradores.

A história de Paraisópolis remonta a 1921, quando o terreno fazia parte da antiga Fazenda do Morumbi. O abandono de loteamentos e a ausência de políticas públicas abriram espaço para a ocupação, que cresceu nas décadas seguintes com a chegada de migrantes nordestinos. Hoje, a comunidade é símbolo de potência e desigualdade ao mesmo tempo — com 72% dos empreendedores formalizados como MEI e um potencial de consumo estimado em R$ 578 milhões anuais.

Mas o muro que separa os dois territórios continua a ser um divisor simbólico e real. “A lei que aplicam aqui, não aplicam lá”, diz Geovan, resumindo um sentimento de injustiça que perdura desde o clique de 2004.

Duas décadas depois, o contraste segue visível: de cima, o luxo parece ameaçado pela expansão da favela; de baixo, o prédio parece uma sombra gigantesca, lembrando que a desigualdade ainda é a marca mais persistente de São Paulo.