Ex-Pm Jiu-jítsu Julgamento

Após três anos e dois adiamentos, ex-PM Henrique Velozo começa a ser julgado pelo assassinato de Leandro Lo

Depois de mais de três anos de espera e dois adiamentos consecutivos, o ex-policial militar Henrique Otavio Oliveira Velozo finalmente começou a ser julgado nesta quarta-feira (12) pelo assassinato do multicampeão mundial de jiu-jítsu Leandro Lo Pereira do Nascimento, morto a tiros em 2022, dentro do tradicional Clube Sírio, na Zona Sul de São Paulo.

O julgamento ocorre no Fórum Criminal da Barra Funda, e é acompanhado de perto por familiares e amigos do lutador, além de representantes da comunidade esportiva. O caso, que ganhou repercussão internacional, volta ao centro das atenções por envolver um dos atletas brasileiros mais vitoriosos da modalidade e um policial militar acusado de agir com extrema violência fora do horário de serviço.

Henrique Velozo, atualmente com 33 anos, está preso preventivamente no presídio militar Romão Gomes, acusado de homicídio doloso triplamente qualificado — por motivo torpe, perigo comum e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. O crime ocorreu na madrugada de 7 de agosto de 2022, durante um show do grupo de pagode Pixote, no Clube Sírio. Segundo o Ministério Público, após uma discussão e breve luta corporal, o PM sacou sua arma e atirou na cabeça de Leandro Lo, que chegou a ser socorrido, mas morreu no hospital.

O júri popular, presidido pela juíza Fernanda Jacomini, deve se estender até a próxima sexta-feira (14). Nove testemunhas estão sendo ouvidas — tanto da acusação quanto da defesa — antes do interrogatório do réu e dos debates entre as partes. Sete jurados, sendo cinco mulheres e dois homens, decidirão se o ex-policial será condenado ou absolvido.

O julgamento enfrentou dois adiamentos desde o início do ano. O primeiro, em maio de 2025, foi motivado por alegações de cerceamento de defesa. O segundo, em agosto, acabou suspenso após um desentendimento entre os promotores do Ministério Público e os advogados do réu. Desta vez, o Tribunal de Justiça garantiu que o processo seguirá até o veredito final.

Na véspera do julgamento, a 8ª Câmara de Direito Criminal revogou a decisão que mantinha Henrique no presídio militar, entendendo que, em caso de condenação, ele poderá ser transferido para um presídio comum. O Ministério Público pede pena mínima de 20 anos de prisão, em razão das três qualificadoras reconhecidas na denúncia.

A defesa, comandada pelo advogado Claudio Dalledone Júnior, sustenta que o disparo foi acidental e que o policial agiu em legítima defesa, alegando que Henrique teria sido agredido e imobilizado com um golpe de jiu-jítsu antes de atirar. “Ele foi provocado, atacado e reagiu. Não houve execução”, afirmou o advogado.

Para reforçar suas versões, tanto a defesa quanto a acusação recorreram à tecnologia. A família de Leandro Lo apresentou um vídeo feito por inteligência artificial, que simula o momento do crime segundo o relato das testemunhas da vítima: o PM discutindo, sendo imobilizado, sacando a arma e atirando em seguida, além de chutar o lutador já caído antes de fugir. Já a defesa exibirá uma animação digital que mostra o policial sendo derrubado e atacado, alegando que o disparo ocorreu durante a tentativa de se defender de um grupo de amigos de Leandro.

O caso também ganhou novos contornos quando, em outubro deste ano, a Justiça anulou a demissão administrativa de Velozo, determinando sua reintegração à PM e o retorno do salário de mais de R$ 14 mil mensais. O governo do Estado ainda não foi oficialmente intimado sobre a decisão.

Leandro Lo, que morreu aos 33 anos, era considerado um dos maiores nomes do jiu-jítsu mundial, com oito títulos mundiais, conquistados entre 2012 e 2022. O atleta era admirado pela postura dentro e fora dos tatames e, à época da morte, se preparava para competir em mais um campeonato internacional. Sua trajetória inspirou uma geração de lutadores e tornou-se símbolo de excelência no esporte brasileiro.