O show do rapper americano Kanye West, também conhecido como “Ye”, foi oficialmente cancelado nesta quinta-feira (20) após uma sequência de medidas que envolveram o prefeito Ricardo Nunes (MDB), o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e a pressão de diversos movimentos sociais. O evento estava marcado para o dia 29 de novembro e seria uma das principais atrações da edição do “Urban Movement Festival 2025”, que prometia levar milhares de pessoas ao Autódromo de Interlagos, na Zona Sul da capital.
A produtora Holding Entretenimento & Networking, responsável pela organização, divulgou nota nas redes sociais comunicando a decisão e confirmando que todos os ingressos serão reembolsados. Segundo a empresa, o cancelamento foi inevitável após a prefeitura revogar unilateralmente a autorização para uso do Autódromo, inviabilizando qualquer planejamento alternativo de última hora. A produtora afirma que já havia quitado o cachê de Kanye West, taxas da prefeitura e demais despesas de montagem, tornando o prejuízo inevitável.
A administração municipal justificou a revogação alegando que São Paulo não permite apresentações de artistas que façam apologia ao nazismo. Nunes enfatizou que nenhum equipamento público será cedido para artistas associados a discursos antissemitas ou a símbolos de ódio. “Ninguém que faça apologia ao nazismo vai cantar em São Paulo. Vamos tomar todas as medidas necessárias para impedir qualquer atividade dessa natureza na cidade”, afirmou o prefeito.
A trajetória recente de Kanye West tem sido marcada por forte rejeição internacional desde 2022, quando o artista passou a defender teses antissemitas, elogiar publicamente Adolf Hitler e repetir ideias que remontam ao regime nazista. As falas provocaram rupturas contratuais com grandes marcas, banimentos temporários em plataformas digitais e uma série de processos envolvendo discurso de ódio.
Paralelamente à decisão da prefeitura, o MP-SP havia instaurado, na semana passada, um inquérito civil com o objetivo de impedir que o artista praticasse ou promovesse declarações discriminatórias durante o show. A Promotoria de Justiça de Direitos Humanos alertou para a “alta probabilidade de futura discriminação” caso a apresentação ocorresse sem limites. O órgão determinou que os produtores impedissem qualquer manifestação de cunho antissemita — inclusive músicas, falas, símbolos ou gestos relacionados ao nazismo.
A promotora Ana Beatriz Pereira de Souza Frontini destacou que, embora a liberdade de expressão seja constitucional, ela não inclui discursos que incentivam violência ou preconceito contra grupos étnicos ou religiosos. Em despacho, reforçou que qualquer exibição de simbologia nazista ou execução de músicas como Heil Hitler configuraria crime de ódio e justificaria prisão em flagrante do artista e dos organizadores, com eventual responsabilização civil por danos morais coletivos.
Com o acirramento do clima político, os organizadores reconheceram que não havia condições de seguir com o evento. Afirmaram ainda que respeitam as instituições, mas que discordam da interrupção, argumentando que shows dessa dimensão fomentam a economia criativa, geram empregos e ampliam o acesso à cultura. Nas páginas oficiais do festival, reforçaram que o reembolso será integral e que informações detalhadas serão enviadas aos compradores em até 24 horas.
O cancelamento encerra, ao menos por ora, a possibilidade de Kanye West voltar a se apresentar no Brasil — algo que já vinha sendo amplamente questionado devido ao histórico recente do artista. O futuro do festival segue incerto, mas a produtora indica que pode tentar remarcar outras atrações. Quanto ao artista, segue enfrentando críticas e investigações em diferentes países, enquanto suas declarações extremistas continuam gerando repercussão e consequências comerciais, políticas e jurídicas.