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Júri mostra PM simulando tiro que matou Leandro Lo e convence jurados de legítima defesa

Um vídeo inédito gravado durante o julgamento do tenente da Polícia Militar Henrique Otavio Oliveira Velozo mostra o momento em que o réu se levanta no plenário, empunha uma arma falsa equipada com mira laser e demonstra aos jurados como teria reagido à agressão do campeão mundial de jiu-jítsu Leandro Lo. A encenação, realizada diante da plateia e dos advogados, foi decisiva para sustentar a tese de legítima defesa. O júri, concluído no dia 14, absolveu o PM por maioria de votos, após três dias de depoimentos, confrontos de versões e manifestações emocionadas.

O caso, que ganhou repercussão nacional desde agosto de 2022, envolveu duas figuras conhecidas: de um lado, Velozo, oficial da PM com anos de serviço; de outro, Leandro Lo, ícone internacional do jiu-jítsu e oito vezes campeão mundial. A morte do lutador ocorreu após uma discussão durante um show no Clube Sírio, na Zona Sul de São Paulo. Segundo a versão apresentada pela defesa, o tenente — que estava de folga e sem farda — foi abordado pelo atleta e por outros quatro praticantes de artes marciais, que o teriam cercado e questionado sobre uma briga anterior envolvendo amigos de Lo.

A partir desse momento, as versões divergem radicalmente. O policial afirma ter sido derrubado, imobilizado com um golpe de “mata-leão” e ter perdido os sentidos. Ao recobrar a consciência, segundo seu relato, viu novamente Leandro vindo em sua direção e temeu ser desarmado ou sofrer agressões fatais. Foi então que sacou sua pistola particular Glock calibre 380 e efetuou um único disparo, que atingiu a cabeça do lutador. No júri, ao refazer a cena com a arma cenográfica, Velozo apontou o laser para a testa de um de seus advogados e descreveu o momento como “uma tragédia”.

A defesa argumentou exaustivamente que o policial reagiu a uma agressão injusta e que sua conduta se enquadrava plenamente na legítima defesa. Ao longo do julgamento, Velozo chorou em mais de uma ocasião, dizendo que não teve outra alternativa e que apenas tentou proteger a própria vida. Em vídeo encaminhado à família da vítima, gravado antes da divulgação das imagens do tribunal, o PM também pediu perdão pelo ocorrido. “Tive que sujar minhas mãos”, disse.

Apesar da absolvição, o desfecho revoltou familiares e apoiadores de Leandro Lo, que acusam o tribunal de ter legitimado uma ação desproporcional. A mãe do atleta, Fátima Lo, publicou um vídeo emocionado afirmando que “enterrava o filho pela segunda vez” e denunciando o que chamou de “impunidade”. O Ministério Público já anunciou que recorrerá da sentença, pedindo sua anulação e a realização de um novo julgamento — embora ainda não tenha divulgado quais pontos pretende contestar.

Após permanecer preso preventivamente por três anos, Velozo deixou a detenção no sábado (15) e reassumiu suas funções na Polícia Militar já na terça-feira (18). A decisão reacendeu debates sobre violência, atuação policial e a responsabilidade de agentes em situações de conflito fora de serviço. Enquanto isso, a memória de Leandro Lo, morto aos 33 anos no auge da carreira, segue homenageada por atletas e fãs do jiu-jítsu, que lembram suas conquistas internacionais e sua influência no esporte.