A trajetória da comandante Karina Buchalla Lutkus, de 46 anos, poderia facilmente ser confundida com o roteiro de um filme sobre superação — mas é fruto de quase três décadas de insistência, resiliência e resistência ao preconceito. Nascida em uma família de aviadores, mas em um ambiente de aviação ainda pouco receptivo às mulheres, ela acaba de marcar seu nome na história: tornou-se a primeira brasileira a comandar um Airbus A380, o maior avião comercial do planeta, hoje operado pela Emirates.
Com capacidade para mais de 500 passageiros, o A380 é símbolo de tecnologia, complexidade operacional e responsabilidade. E foi justamente ao completar o voo de avaliação, em 27 de outubro deste ano, que Karina sentiu que todas as barreiras que tentaram impor a ela — explícitas e silenciosas — tinham caído por terra.
“Não pode nunca desistir. A gente consegue tudo o que quer quando combina dedicação, foco e resiliência”, afirma. A frase, repetida com serenidade, reflete muito mais do que um conselho: é um resumo da vida inteira.
Primeiros passos: quando o sonho encontra resistência
A história de Karina começa cedo, ainda adolescente, quando decidiu seguir os passos do pai, comandante da Varig. Apesar do ambiente familiar ligado à aviação, houve hesitação — principalmente pelo preconceito que ela inevitavelmente enfrentaria.
Quando completou 16 anos, seu pai a levou ao aeroclube, mas, longe de oferecer um voo de boas-vindas, pediu ao instrutor que realizasse manobras bruscas para ver se a filha desistia. O efeito foi o oposto: quanto mais radical a manobra, mais ela tinha certeza de que estava no caminho certo.
A aprovação do pai veio naquele mesmo dia. Daí em diante, ele se tornou seu guia técnico, enquanto a mãe oferecia apoio emocional e a convencia a nunca abrir mão da própria independência — algo que Karina leva até hoje como missão pessoal.
“Desiste, isso não é coisa de mulher”
Na aviação, o início de carreira costuma ser a fase mais desafiadora de qualquer piloto. Para mulheres, porém, as portas são ainda mais estreitas. Karina viveu isso na prática.
No curso de piloto privado, ouviu repetidas vezes de colegas:
“Desiste, você não vai servir pra isso.”
“Aviação não é coisa de mulher.”
Houve momentos em que nem permitiam que ela voasse durante as aulas práticas. Mas Karina seguiu em frente — e manteve foco mesmo diante de situações de machismo explícito, inclusive já trabalhando como piloto.
Conseguir horas de voo — requisito essencial para entrar em uma companhia aérea — exigiu sacrifícios. Ela chegou a trabalhar três anos em aerotáxis sem receber salário, acumulando apenas experiência prática. “Eu pagava minhas próprias despesas, mas ganhava horas de voo. Aquilo era meu investimento”, explica.
Reviravoltas, frustrações e quase conquistas
A virada parecia estar próxima quando, em 2001, passou por todas as etapas para ingressar na Varig. Mas no dia exato da última prova, o mundo assistia aos atentados de 11 de setembro, que levaram a uma crise global no setor aeronáutico. A Varig congelou contratações — e Karina perdeu a vaga.
O episódio se repetiu no ano seguinte. Aprovada pela TAM, com uniforme pronto e simulador finalizado, foi demitida um dia antes do primeiro voo por causa de dois incidentes ocorridos na empresa no mesmo dia, o que levou a uma reestruturação interna.
Foram golpes duros, mas nunca definitivos.
Dois anos mais tarde, voltou à TAM, onde construiu grande parte da carreira: foi copiloto, atuou em rotas internacionais e, mais tarde, tornou-se comandante de aeronaves da família Airbus A320.
O sonho internacional: o caminho até a Emirates
Mesmo consolidada no Brasil, Karina tinha outro objetivo: entrar para a Emirates. Sonhava em voar grandes aeronaves em rotas mundo afora.
Ela só adiou a mudança porque cuidava do pai, diagnosticado com Parkinson. Após seu falecimento, partiu para Dubai — e passou com destaque no processo da companhia.
Na Emirates, o caminho até virar comandante de A380 começou imediatamente. A empresa exige treinamentos rigorosos a cada três meses, simuladores com múltiplos cenários de emergência e avaliações complexas que abrangem performance, psicotécnico, entrevistas, provas de sistemas e procedimentos.
Após cumprir todos os requisitos, veio o upgrade. E com ele, o momento mais emocionante da carreira: o cheque final, o voo em que é avaliada no comando real da aeronave. O examinador, sentado no jump seat, finalizou a checagem com um aperto de mão e um simples:
“Parabéns, muito bem-feito.”
“Foi o momento em que percebi que tudo valeu a pena. É uma emoção que não cabe no peito”, diz.
A rotina no maior avião do mundo
Hoje, Karina comanda um Airbus A380, aeronave com dupla configuração de andares, centenas de passageiros e uma tripulação que inclui 24 comissários somente na cabine.
As rotas longas incluem operações em dupla: dois comandantes e dois copilotos revezam o voo, com cabines exclusivas para descanso.
A comandante destaca que a Emirates mantém escalas cuidadosamente balanceadas, priorizando o descanso da tripulação — algo que permite que ela concilie a vida profissional com a familiar.
Vida em Dubai
Atualmente, Karina vive em Dubai com o marido — um piloto aposentado — e os dois filhos. Ele assume a rotina da casa durante os voos longos, e ela afirma que a qualidade de vida é essencial para a dinâmica familiar funcionar.
“Fico dois ou três dias fora e depois passo cinco dias em casa. A vida aqui é muito equilibrada. Fazemos tudo juntos, sem funcionários. Aproveitamos ao máximo nossos filhos.”
Símbolo de determinação
Hoje, Karina representa não apenas uma conquista individual, mas um avanço para a aviação brasileira e para as mulheres que sonham em entrar em áreas tradicionalmente dominadas por homens.
Sua mensagem final resume bem seu legado:
“Sonho não tem gênero. O impossível é só aquilo que você abre mão de tentar.”