A Controladoria Geral do Município (CGM) instaurou uma investigação para apurar a conduta do ex-vereador paulistano Marlon Farias Luz (MDB), conhecido como “Marlon do Uber”. Atualmente, ele ocupa um cargo de assessor de diretoria na Prodam — empresa municipal de tecnologia — com salário de R$ 28 mil mensais. Apesar do vínculo com a administração municipal, Marlon também aparece como rosto público de uma associação privada que promove rifas online, a “Sorte Grande entre Amigos”.
O ponto central da apuração é a suspeita de que a associação tenha promovido ações sociais divulgadas como fruto das rifas, porém utilizando cestas básicas fornecidas pela própria Prefeitura de São Paulo por meio do programa Cidade Solidária, coordenado pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos. Em vídeos publicados nas redes sociais da entidade, cestas custeadas com dinheiro público aparecem sendo entregues sem que isso seja informado ao público, enquanto a marca da associação de rifas ganha destaque.
Além disso, imagens mostram tentativas de evitar que o logotipo da Prefeitura de São Paulo — impresso nas caixas — apareça nos registros das ações. Enquanto isso, as peças de divulgação sugerem que as doações foram possíveis graças às arrecadações dos sorteios promovidos pela associação. Em um dos vídeos, Marlon afirma que as cestas seriam resultado direto da “arrecadação da Sorte Grande entre Amigos”, vinculando as doações aos sorteios filantrópicos promovidos pela instituição.
Entretanto, dados do próprio sistema de acompanhamento do programa Cidade Solidária revelam que a associação recebeu 546 cestas básicas entre 2023 e 2025, incluindo 276 somente no ano eleitoral de 2024. As entregas registradas coincidem com ações divulgadas como se fossem financiadas pelas rifas.
Apesar das atividades de sorteio — que, segundo o Ministério da Fazenda, são consideradas ilegais quando há venda de bilhetes por entidades não beneficentes — a Prodam alegou que as promoções da Sorte Grande seriam filantrópicas, sem fins econômicos. A empresa também afirma que os prêmios, que incluem carros zero quilômetro e PIX de até R$ 30 mil, seriam custeados de forma privada, sem relação com o servidor.
A Prefeitura disse que associações cadastradas podem divulgar suas ações e que o programa Cidade Solidária não proíbe a publicidade dessas iniciativas. Ainda assim, a CGM abriu procedimento administrativo após ser questionada pela imprensa.
A trajetória de Marlon é marcada por mudanças rápidas: de motorista de aplicativo e influenciador da categoria, foi eleito vereador em 2020 com uma campanha baseada em grupos de WhatsApp e baixíssimos custos. Ao longo do mandato, abandonou o nome “Marlon do Uber”, migrou de partido e buscou a reeleição em 2024 com gastos mais de 80 vezes maiores que os da primeira campanha. O retorno eleitoral, no entanto, foi quase o mesmo, e ele não conseguiu permanecer na Câmara.
Poucos meses depois de deixar o mandato, em abril de 2025, foi contratado pela Prodam com salário superior ao que recebia como vereador. Segundo a empresa, suas atividades filantrópicas ocorrem fora do horário de trabalho e não violam normas internas. Já a CGM analisa se houve irregularidade no uso das cestas básicas municipais para promoção de ações associadas às rifas da entidade que leva seu nome e atua em endereço vinculado ao seu antigo escritório político.
A associação Sorte Grande tem dirigentes ligados diretamente ao ex-vereador, incluindo parentes, ex-sócios e ex-funcionários. Ela foi aberta em 2023, quando Marlon ainda exercia o mandato, e aparece registrada como entidade de defesa de direitos sociais. No entanto, as rifas de carros, motos e valores em dinheiro que promove são atividades proibidas no Brasil sem autorização específica.
O Ministério da Fazenda ainda não confirmou se a entidade possui permissão para realizar esse tipo de sorteio. Enquanto isso, a investigação prossegue para esclarecer se houve indução do público ao erro ou uso indevido de bens públicos para fins de promoção pessoal ou privada.