Polícia

PF aponta médico como sócio oculto de farmacêutica que importava tirzepatida ilegalmente e operava esquema milionário

A investigação da Polícia Federal no âmbito da Operação Slim revelou que o médico Gabriel da Silva Almeida teria participação oculta na estrutura societária da LCA Farmacêutica Ltda., empresa que opera sob o nome Unikka Pharma e é suspeita de importar e fabricar ilegalmente produtos à base de tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro — medicamento de alto valor e grande procura para emagrecimento. A farmacêutica, inclusive, é proprietária do avião apreendido pela PF na quinta-feira (27), em uma ação que reforçou a dimensão e complexidade do esquema.

Segundo o inquérito, a Unikka Pharma, que ganhou projeção por ter Neymar Júnior como garoto-propaganda, trazia matéria-prima da China e do Canadá sem autorização da detentora da patente no Brasil, a farmacêutica Lilly. Além da ausência de permissão legal para importação, a Anvisa confirmou que a empresa não possui licença para manipular tirzepatida no país.

O material apreendido e os documentos analisados indicam que a organização mantinha uma estrutura de produção em escala industrial, contrariando as regras da manipulação magistral, que tem limites rígidos quanto ao volume e às condições de fabricação. A PF afirma que foram identificados ambientes inadequados, rotulagem irregular e envase em larga escala, elementos que reforçam a suspeita de operação clandestina.

Fontes que acompanham o inquérito informaram que mais de 48 kg de tirzepatida teriam sido importados pela farmacêutica. Essa quantidade, segundo a PF, permitiria a fabricação de ao menos 9,6 milhões de doses — superando o volume oficialmente importado do medicamento acabado pela própria Lilly.

A ligação de Gabriel Almeida com a farmacêutica começou a chamar atenção após a PF identificar movimentações financeiras que ultrapassam R$ 3,4 milhões entre a LCA e uma empresa de cursos do médico, a Almeida Cursos e Treinamento Profissional Ltda., também conhecida como Academia GA. A instituição oferece cursos de terapias injetáveis, entre elas a aplicação de tirzepatida.

A clínica do médico, instalada em uma mansão no Jardim Europa, em São Paulo, foi alvo de mandado de busca e apreensão, assim como seu imóvel em Feira de Santana, na Bahia. Para os investigadores, a estrutura empresarial do médico funcionava de forma integrada ao esquema, com a capacitação de profissionais e possível aplicação das substâncias supostamente produzidas irregularmente pela Unikka Pharma.

A PF aponta ainda que Gabriel e os sócios da LCA, Derek Camargo e Lucas Gasparini, investiram em conjunto em uma ilha privativa na Baía de Todos-os-Santos, em Salvador, onde cotas eram vendidas por quase R$ 20 milhões — indício considerado relevante para a comprovação de vínculos societários não declarados.

A defesa do médico não respondeu aos novos questionamentos da reportagem, mas divulgou nota após a operação negando qualquer atuação na fabricação ou manipulação da tirzepatida. Os advogados afirmam que Gabriel se dedica apenas à medicina e à docência e que sua relação com a substância é exclusivamente científica. Afirmam ainda que a investigação gira em torno de questões de patente, e não de risco sanitário.

O médico afirma estar colaborando com as investigações e entregou seus celulares e computadores à PF. Ele também repudiou o que chamou de “julgamento midiático antecipado”.

Além das suspeitas reveladas pela PF, Gabriel já havia sido punido em julho pelo Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb), por infrações éticas relacionadas a documentos médicos. O médico, no entanto, nega ter cometido qualquer irregularidade e sustenta que assinaturas usadas no processo teriam sido falsificadas, apresentando um laudo grafotécnico como prova.

Com a repercussão do caso, a NR Sports, empresa responsável pela carreira de Neymar, suspendeu o contrato do atleta com a Unikka Pharma.