Mais de 24 horas após o início do vendaval que varreu a Região Metropolitana de São Paulo, a cidade ainda vive um cenário de colapso em vários setores essenciais. Quase 1,4 milhão de residências permanecem sem energia nesta quinta-feira (11), sendo cerca de 1 milhão apenas na capital. O apagão prolongado, que já havia afetado mais de 2 milhões de imóveis simultaneamente na quarta (10), é considerado o maior desde os eventos climáticos extremos registrados nos últimos anos.
As rajadas de vento, que alcançaram 98,1 km/h na Lapa, na Zona Oeste, foram descritas por meteorologistas como um fenômeno extraordinário. Diferentemente de tempestades comuns, desta vez o céu permaneceu estável, sem chuva intensa, enquanto a ventania se prolongava por horas, surpreendendo especialistas e ampliando os danos estruturais.
A falta de energia desencadeou uma série de problemas em cadeia. Estações de bombeamento da Sabesp foram paralisadas, prejudicando o abastecimento de água em diversos bairros da capital, como Americanópolis, Cangaíba, Sacomã, Vila Formosa e Parelheiros. Cidades inteiras da Grande São Paulo — como Guarulhos, Mauá, Itapecerica da Serra, Santa Isabel e Cajamar — também ficaram completamente sem fornecimento.
O trânsito, já complicadíssimo, sofreu ainda mais pressão. A CET registrou quase 300 semáforos apagados, principalmente na região central. A queda de árvores sobre fiações foi o principal fator, aumentando o risco de colisões e deixando cruzamentos críticos sem controle adequado.
O impacto nas áreas verdes também foi imenso: ao menos 231 árvores caíram na capital desde quarta-feira, bloqueando vias, danificando veículos e exigindo a mobilização ininterrupta das equipes da prefeitura. O trabalho avança lentamente, já que várias ocorrências dependem da liberação técnica da Enel para que os troncos sejam removidos com segurança.
No transporte aéreo, o caos se espalhou rapidamente. Os aeroportos de Congonhas e Guarulhos contabilizam 344 voos cancelados entre quarta e a manhã desta quinta. Passageiros lotaram saguões, formaram filas intermináveis e passaram a noite nos bancos, sem informações precisas sobre remarcações. Os reflexos chegaram também aos aeroportos do Rio de Janeiro e de Brasília, mostrando que o efeito dominó se espalhou pelo país.
Parques importantes como Ibirapuera, Cantareira, Horto Florestal e Eucaliptos amanheceram fechados devido ao risco de quedas de galhos e árvores já danificadas pela ventania. A Urbia anunciou que só reabrirá as áreas quando houver segurança para circulação de visitantes.
O setor econômico também sofre um baque significativo. Segundo levantamento da FecomercioSP, a cidade de São Paulo já acumula R$ 1,54 bilhão em prejuízos somente entre quarta e quinta-feira. Os serviços foram os mais afetados — com perdas superiores a R$ 1 bilhão — enquanto o comércio deixou de faturar R$ 511 milhões no período.
A Defesa Civil confirmou que a ventania foi resultado do ciclone extratropical formado no Sul do Brasil, que também influenciou o clima na capital paulista. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que acionará a Aneel e recorrerá à Justiça para cobrar providências da Enel diante da demora no restabelecimento da energia, lembrando que episódios de apagões vêm se repetindo desde 2023.
Com árvores tombadas em diversas regiões, fechamento de parques, longas filas em aeroportos e bairros inteiros no escuro, São Paulo enfrenta os desdobramentos de um dos eventos climáticos mais marcantes da década — um vendaval sem precedentes que expôs novamente a fragilidade da infraestrutura urbana diante de fenômenos extremos.