São Paulo

Cinemas de bairros ricos concentram sessões legendadas, enquanto periferias e Grande SP exibem maioria esmagadora de filmes dublados

Morar perto de um cinema em São Paulo ou na Região Metropolitana não garante, necessariamente, acesso ao filme no formato desejado. Um levantamento realizado pelo g1 revela uma desigualdade marcante na oferta de sessões legendadas e dubladas, evidenciando um recorte socioeconômico na programação das salas de cinema.

A análise considerou 1.267 sessões disponíveis em uma das maiores plataformas de venda de ingressos do país, em um único dia de programação na capital paulista e na Grande São Paulo. Os dados mostram que, embora exista um aparente equilíbrio geral na capital — com leve predominância de sessões dubladas —, a distribuição das versões não ocorre de forma homogênea entre os bairros.

Em distritos com renda média mais elevada, especialmente nas zonas Sul e Oeste, como Itaim Bibi, Jardim Paulista, Pinheiros, Consolação e Moema, a presença de filmes legendados é dominante. Em alguns desses bairros, as salas exibem quase exclusivamente sessões no idioma original. Já em regiões periféricas da capital e em municípios vizinhos, a realidade é oposta: cerca de 78% das sessões são dubladas, com escassa ou nenhuma oferta de versões legendadas.

A desigualdade fica ainda mais evidente fora da capital. Na Grande São Paulo, apenas 21,7% das sessões analisadas eram legendadas. Em cidades como Carapicuíba, Diadema, Itapevi e Suzano, não havia nenhuma sessão com legendas no dia avaliado. Outros municípios apresentaram números igualmente reduzidos, como Osasco, Santo André, São Bernardo do Campo e Itaquaquecetuba.

Essa diferença impacta diretamente a experiência do público. Moradores de regiões periféricas relatam longos deslocamentos para conseguir assistir a filmes legendados, especialmente produções fora do circuito comercial, como filmes estrangeiros e mostras especiais. Para muitos cinéfilos, a ausência dessa opção representa uma barreira de acesso cultural.

Especialistas apontam que o fenômeno é multifatorial. Pesquisadores destacam que a predominância de sessões dubladas em áreas populares não pode ser explicada apenas por renda ou escolaridade, mas também por fatores históricos, culturais e mercadológicos. A própria trajetória da dublagem no Brasil, fortemente associada à televisão nas décadas de 1980 e 1990, ajudou a moldar preferências do público.

Além disso, dados de mercado reforçam a lógica econômica por trás da escolha das exibidoras. Levantamento de 2021 indicou que cerca de 73% dos ingressos vendidos no Brasil foram para filmes dublados, o que sugere que a ampliação dessa oferta atende a uma estratégia de maximização de público e lucro.

Pesquisadores também lembram que, por décadas, o setor cinematográfico brasileiro resistiu à dublagem no cinema, temendo prejuízos à produção nacional. Com a popularização do VHS e do DVD, e posteriormente das grandes redes de cinema, a relação entre classe social, preferência do público e formato de exibição tornou-se mais visível.

O estudo evidencia que a escolha entre filmes dublados ou legendados vai além de uma simples preferência individual e reflete desigualdades estruturais no acesso à cultura e ao consumo audiovisual na maior metrópole do país.