A morte de Oscar Maroni Filho, aos 74 anos, encerra um dos capítulos mais controversos e midiáticos da vida noturna de São Paulo. Empresário, psicólogo de formação e personagem constante de debates públicos, Maroni ficou nacionalmente conhecido como o “Rei da Noite” por comandar o Bahamas, boate e hotel que se tornaram símbolos de luxo, excessos e disputas com o poder público.
Maroni morreu na quarta-feira, 31 de dezembro de 2025, último dia do ano, na capital paulista. A família não divulgou a causa da morte nem detalhes sobre o velório e o sepultamento. Em nota publicada no site do Bahamas, o empresário foi descrito como alguém que “viveu intensamente” e que jamais abriu mão de suas convicções pessoais e da defesa da liberdade individual.
Nascido em 1951, na cidade de Jundiaí, no interior de São Paulo, Oscar Maroni iniciou sua trajetória profissional longe do universo que o tornaria famoso. Formado em Psicologia, chegou a trabalhar na área antes de empreender em negócios mais simples, como um trailer de lanches. A virada em sua vida ocorreu nos anos 1990, quando criou o Bahamas, em Moema, na Zona Sul da capital.
O espaço rapidamente ganhou notoriedade por reunir homens e mulheres interessados em encontros sexuais, algo que Maroni sempre descreveu como uma expressão de liberdade individual. Desde o início, ele defendia publicamente a regulamentação da prostituição e afirmava que seu estabelecimento não explorava garotas de programa, posição que sustentou ao longo de décadas, mesmo diante de investigações e processos judiciais.
As polêmicas acompanharam sua carreira. Em 1998, Maroni foi preso pela primeira vez, acusado de explorar a prostituição, crime previsto na legislação brasileira. Anos depois, em 2007, voltou à prisão, permanecendo quase dois meses detido sob acusações de formação de quadrilha e tráfico de pessoas. Em 2011, chegou a ser condenado a 11 anos e oito meses de prisão, sentença que parecia selar o fim de seus negócios.
No entanto, em 2013, o Tribunal de Justiça de São Paulo reverteu a decisão e absolveu o empresário, permitindo a reabertura do Bahamas. A absolvição foi celebrada por Maroni como uma vitória pessoal e usada por ele como argumento para reforçar sua narrativa de perseguição política e moral.
Outro episódio marcante foi o embate com a Prefeitura de São Paulo após o acidente aéreo da TAM, em 2007, que matou 199 pessoas em Congonhas. Naquele contexto, o Oscar’s Hotel, outro empreendimento do empresário, teve o alvará cassado sob a justificativa de risco à segurança aérea, por estar próximo à cabeceira da pista. O então prefeito Gilberto Kassab foi pessoalmente ao local para interditar o prédio, ação que gerou protestos públicos de Maroni, inclusive com manifestações simbólicas em frente ao hotel. O estabelecimento só voltou a funcionar anos depois, em 2013.
Além do mundo empresarial, Maroni também buscou espaço na política e na mídia. Em 2008, candidatou-se a vereador em São Paulo, mas não conseguiu se eleger. Ainda assim, manteve o discurso de que pretendia influenciar o debate público, sobretudo em temas como a regulamentação da prostituição e o funcionamento de casas noturnas.
Em 2017, lançou a biografia “O Colecionador de Emoções”, na qual narrou sua trajetória, criticou a atuação do poder público e reforçou a imagem de empresário perseguido por suas ideias. No mesmo ano, surpreendeu ao anunciar a intenção de disputar a Presidência da República, proposta que acabou não avançando, mas ampliou sua visibilidade nacional.
A relação com a mídia sempre foi explorada como estratégia de marketing. Maroni participou de reality show, sendo eliminado logo no início, e promoveu ações chamativas, como a distribuição de milhares de latas de cerveja em episódios políticos que repercutiam no país. Essas iniciativas ajudaram a consolidar sua imagem de provocador e personagem folclórico da vida pública brasileira.
Nos últimos anos, o Bahamas voltou ao centro das atenções durante a pandemia de Covid-19. Em 2021, o local foi multado e fechado após fiscalização constatar a realização de festa clandestina, desrespeitando medidas sanitárias impostas pelo governo estadual. O episódio reacendeu críticas e debates sobre responsabilidade social e limites da atuação empresarial.
Em 2024, a família revelou que Oscar Maroni havia sido diagnosticado com Alzheimer e vivia em uma casa de repouso. Sua morte, no fim de 2025, encerra uma trajetória marcada por controvérsias, absolvições, embates políticos e uma busca constante por visibilidade, deixando um legado que divide opiniões e segue como símbolo de uma era da noite paulistana.