São Paulo

Fim da baliza e uso de carro automático: o que dizem especialistas sobre as mudanças na prova da CNH em SP

Após o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) de São Paulo aprovar mudanças na prova prática para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) no estado, entre elas o fim da baliza (estacionamento dentro de uma área demarcada por estacas) e a permissão do uso de carros com câmbio automático, as medidas dividiram a opinião de motoristas nas redes sociais.

“Maravilha. Melhor que eu esperava aqui em São Paulo. Esse lance de baliza é balela e carro manual é atraso de vida. Trocar marcha cansa os braços, usar embreagem para troca de marcha. Carro automático é outra coisa, mil vezes melhor. E hoje as pessoas estão preferindo carro automático, é o futuro das ruas e já está sendo”, opinou um internauta.

“A prova de baliza não significa aptidão e reprovar significa dinheiro no bolso das autoescolas”, afirmou outro.

Já para alguns motoristas, as mudanças geram preocupação. “Como se carro automático estacionasse sozinho. Se a pessoa não souber manobrar, vai ser um terror”, ponderou uma internauta.

“O trânsito já é complicado hoje em dia , imagina futuros motoristas com essas regras que abrem mão do fundamental para se tornar motorista com 2 horas para aprender dirigir e não ser obrigatório fazer baliza. Agora, o que importa é ter o documento”, afirmou outra.

Diante da repercussão, o g1 ouviu especialistas sobre o fim da baliza e o uso de carro automático na prova prática da CNH. Veja abaixo:

Enfraquecimento da formação de condutores
Para Paulo Guimarães, CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária, as mudanças aprovadas pelo Detran-SP não representam, por si só, um risco imediato à segurança no trânsito.

Segundo avaliação técnica, tanto a liberação do uso de carros automáticos quanto o fim da obrigatoriedade da baliza no exame prático têm impacto limitado quando analisados isoladamente.

O alerta, no entanto, está na forma como a medida vem sendo estruturada, ressaltou Paulo. Segundo ele, o principal problema é que a tomada de decisão dos gestores não parece estar baseada em dados e evidências, o que, segundo o especialista, deve servir de alerta para toda e qualquer estruturação de política pública.

Ele também destaca que a garantia de um bom comportamento no trânsito, sendo o principal desafio da segurança viária no Brasil atualmente, depende de três fatores: formação, avaliação e responsabilização dos condutores.

“Quando a gente olha para a política pública de uma forma geral, a gente teve um afrouxamento, uma flexibilização no processo de formação, o que em tese deveria gerar um maior rigor nos exames, no sistema de balanços e contrapesos da política pública e, por fim, [deveria gerar] a garantia da responsabilização daquele cidadão”, explica.

O especialista ainda ressalta que, se é dada mais liberdade ao motorista, essa autonomia precisa vir acompanhada, de forma proporcional, de responsabilidade. Para ele, o país enfrenta falhas tanto na fiscalização quanto na aplicação das penalidades de trânsito.

Para a especialista Juliana de Barros Guimarães, diretora científica da Associação Brasileira de Psicologia de Tráfego e conselheira federal do Conselho Federal de Psicologia, a discussão sobre o fim da baliza vai além da manobra em si e envolve a avaliação emocional e comportamental do candidato.

Segundo ela, o teste prático deveria expor o futuro condutor a situações que simulem as pressões reais do trânsito, algo que, na avaliação dela, vem sendo perdido ao longo do tempo.

“Na questão da baliza, a gente acaba não tendo o esforço de algumas habilidades e aptidões para as pessoas tirarem a sua CNH. Acho que a prova submete a algumas situações, tanto de perícia, mas também de colocar você em uma condição em que está sendo testada e emocionalmente provocada a reagir, seja por questões de tempo, alguém observando. Isso é uma forma de simular um pouco o que você vivencia no trânsito do dia a dia.”

Ela destaca que lidar com pressão, tempo e espaço compartilhado faz parte da rotina de quem dirige, e avalia que a ausência de situações simuladas na prova prática pode comprometer essa preparação emocional.

“Mas a baliza é mais por uma questão emocional mesmo, de provocar as tensões, porque geralmente as pessoas ficam muito tensas.”

A especialista também comentou a liberação do uso de carros automáticos no exame prático. Para ela, a medida não é problemática em si, desde que haja uma diferenciação clara na habilitação.

“Tecnicamente falando, devia vir uma observação ou alguma coisa na carteira que diga que você aprendeu a dirigir e só se submeteu à prova em um carro automático, para que de alguma forma não seja permitido a você dirigir um carro não automático.”

Na avaliação dela, essa distinção evitaria que motoristas sem treinamento em veículos manuais conduzissem carros com câmbio convencional, o que exige domínio de habilidades específicas, como o controle de marcha e embreagem. Ela lembra que esse tipo de observação já existe para pessoas com deficiência que só podem dirigir veículos automáticos.

“É só essa preocupação, porque quem só aprende no carro automático, só fez prova e só se treinou em um veículo automático, a gente sabe que no veículo comum o mais difícil é isso: o momento de passar marcha, de não deixar o carro morrer, a velocidade, enfim, uma série de outras questões.”

De forma mais ampla, Juliana demonstrou preocupação com o que chamou de “facilitação excessiva para obtenção da CNH”, sem o devido rigor na avaliação das habilidades, do aprendizado e do estado emocional dos futuros condutores.

Segundo ela, o trânsito é um ambiente marcado por alto nível de estresse, conflitos e consequências graves, como mortes e sequelas permanentes decorrentes de acidentes. Por isso, defende um equilíbrio entre redução de custos e rigor na avaliação dos condutores.

População em risco
Em entrevista à TV Globo, Mateus Martins, vice-presidente da Associação dos Centros de Formação de Condutores do Estado de São Paulo, afirmou que medidas adotadas pelo Detran paulista colocam a população em risco.

Na avaliação dele, “flexibilizar o exame hoje é trazer insegurança, é trazer risco à condição viária. É trazer risco ao cidadão”.

“A baliza não é um detalhe, ela é parte do básico da condução. Estacionar corretamente, ter noção de espaço, controle do veículo em baixa velocidade, tudo isso faz parte da segurança. Então, qualquer motorista vai precisar fazer baliza”, afirmou Mateus.