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Especialistas questionam dados sobre população de jumentos essenciais

Especialistas questionam dados sobre população de jumentos essenciais

A divulgação de dados sobre a população de jumentos no Brasil, alegando que sua contagem seria “dez vezes maior que o estimado”, gerou controvérsias significativas entre especialistas em agroeconomia e medicina veterinária. O alerta vem de cientistas da Universidade de São Paulo (Esalq), Universidade Federal de Alagoas (UFAL), e organizações de defesa animal como a The Donkey Sanctuary. Esses profissionais assinalaram várias incongruências no relatório do World Population Review (WPR).

Limitações dos dados da FAO

O World Population Review começou em 2013 com o objetivo de compilar tópicos demográficos e, ao longo do tempo, passou a contemplar informações sobre a quantidade de animais de produção. Ao analisar a população de jumentos brasileiros, a WPR baseou suas estimativas em dados da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. Contudo, especialistas alertam que essa contagem possui limitações significativas.

Os jumentos, assim como as mulas, não são contabilizados com a mesma precisão que animais de grande importância econômica, como bovinos e suínos. Isso se deve à baixa relevância econômica que esses animais têm no Brasil. Roberto Arruda de Souza Lima, professor da ESALQ/USP, esclarece que a FAO não realiza censos próprios, confiando em estimativas que podem ser imprecisas, especialmente quando se observa a contagem de jumentos no Brasil.

Dados inconclusivos e debates acadêmicos

A pesquisa periódica sobre a Pecuária Municipal (PPM) não produz censos completos e deixou de disponibilizar dados sobre jumentos desde 2013, resultando em uma situação que levanta questões sobre a precisão das estimativas atuais. Apesar da FAO recorrer a modelos estatísticos, esses não são suficientes para fornecer uma representação fidedigna da realidade, especialmente considerando o declínio populacional desde que permitiram o abate de jumentos com fins de exportação.

Além disso, houve discrepâncias evidentes entre os números do Censo Agropecuário do IBGE e as estimativas da FAO, levantando dúvidas sobre a validade dos dados da FAO. Um estudo da Esalq/USP destacou a falta de uma cadeia produtiva organizada que monitore consistentemente a população de jumentos, o que impacta a precisão dos dados fornecidos.

Preservação do jumento nordestino

O debate se torna ainda mais urgente ao considerar a situação do jumento nordestino, que está ameaçado devido à alta demanda por suas peles. A preservação da espécie é crítica, não apenas por razões culturais e econômicas, mas também pela necessidade de conservar o genoma único do jumento nordestino. Especialistas exigem mais transparência do Ministério da Agricultura sobre a gestão e a saúde das populações de jumentos.

Com a perda dramática da população de jumentos nordestinos nos últimos 30 anos, a necessidade de dados confiáveis e uma estratégia de preservação torna-se evidente. Com apenas 6% da população original remanescente, a situação apresenta um profundo problema ambiental e cultural que exige atenção imediata.