Mais de dois dias após o vendaval histórico que atingiu a Grande São Paulo na quarta-feira (10), a Região Metropolitana ainda enfrenta um dos maiores apagões dos últimos anos. Segundo o boletim divulgado pela Enel às 10h desta sexta-feira (12), 726 mil imóveis continuam sem energia elétrica, mesmo após mais de 50 horas de esforços para restabelecimento. No momento mais crítico, o blecaute chegou a atingir 2,2 milhões de residências e comércios.
A interrupção no fornecimento afeta diretamente serviços essenciais, especialmente no município de São Paulo, que lidera os registros, com 536 mil endereços às escuras. A situação também tem forte impacto em cidades como Juquitiba, Embu das Artes e Cotia, que registram o maior percentual de domicílios sem luz — chegando a 32,8% no caso de Juquitiba.
Embora os aeroportos de Congonhas e Guarulhos já tenham retomado a operação normal após dias de caos, o cotidiano nas ruas ainda é marcado por transtornos. Semáforos apagados complicam o trânsito, bombas de água não funcionam em diversos bairros, e moradores relatam dificuldades para lidar com a falta de energia, especialmente famílias com idosos e pessoas acamadas.
A Enel afirma ter restabelecido a energia de 1,8 milhão de clientes, mas alerta que novos 500 mil chamados surgiram ao longo da quinta-feira devido à continuidade dos ventos intensos. No total, a concessionária diz trabalhar para atender aproximadamente 830 mil consumidores, o que corresponde a 9,8% de toda a sua base.
O fenômeno climático que causou o apagão foi classificado pelo Inmet como resultado de um ciclone extratropical, que trouxe rajadas de vento de até 98 km/h e durou cerca de 12 horas. Árvores caídas, galhos arremessados e objetos atingindo a rede elétrica provocaram danos em massa. Em São Paulo, 382 quedas de árvores foram contabilizadas, sendo que dezenas de ocorrências ainda aguardam apoio da Enel para remoção.
A companhia reconheceu, durante entrevista à TV Globo, que estava ciente da chegada de ventos fortes, mas não da duração atípica do evento. Segundo Marcelo Puertas, diretor regional da Enel, a extensão da ventania tornou a situação “completamente diferente de outras crises”.
Moradores relatam dificuldades até mesmo para acompanhar as previsões de retorno da energia pelo aplicativo da empresa. Alguns receberam estimativas que mudavam em questão de minutos; outros sequer conseguiram acessar o sistema. Em certos casos, o aplicativo impedia que o cliente fizesse capturas de tela com as informações apresentadas.
A ventania afetou todos os 24 municípios da área de concessão da Enel, incluindo Santo André, São Bernardo, Osasco, Barueri, Carapicuíba, Taboão da Serra e a capital paulista. Em vários trechos da cidade, o cenário é de ruas parcialmente bloqueadas por quedas de árvores, semáforos inoperantes e equipes municipais aguardando a atuação da concessionária para liberar vias e concluir atendimentos.
Enquanto isso, bairros como Americanópolis, Parelheiros, Vila Formosa e Vila Romana sofrem com falhas no abastecimento de água devido à falta de energia nos sistemas de bombeamento da Sabesp.
Sem previsão de normalização completa, o apagão segue comprometendo o cotidiano de quase um milhão de consumidores na Grande São Paulo, que aguardam a resolução dos estragos deixados pela intensidade incomum da ventania.