Localizada no município de São João da Barra, no Rio de Janeiro, a praia de Atafona se destaca por sua beleza, mas também enfrenta um sério problema: a perda de faixa de terra. Anualmente, a região sofre uma erosão que retira de 3 a 5 metros de terreno, um fenômeno que se intensifica há mais de 60 anos.
Desde então, mais de 1,2 quilômetro de território foi submerso, levando à destruição de mais de 500 edificações, incluindo o histórico farol da praia, escolas, bares, boates, um hotel e até igrejas. Além disso, a lama que um dia foi lar para 300 famílias de pescadores desapareceu sob as ondas.
Fatores Contribuintes da Erosão Costeira
Para compreender a dinâmica dessa erosão, o engenheiro civil Gilberto Pessanha Ribeiro, coordenador do Observatório da Dinâmica Costeira da Universidade Federal de São Paulo, explica que não existem causas únicas que a expliquem.
“Os eventos regionais, como a influência do vento, o clima das ondas, além dos efeitos astronômicos das marés e o transporte de sedimentos, interagem de forma complexa”, diz Ribeiro, que pesquisa a área há 18 anos.
Embora muitos fatores naturais estejam em jogo, a pesquisadora Thaís Baptista, da Universidade Federal Fluminense, aponta que ações humanas, como a construção de barragens ao longo do rio Paraíba do Sul, têm acelerado esse processo. “As barragens em si podem não ser o estopim da erosão, mas suas construções, ao desregular o fluxo de água, contribuem para o cenário atual”, afirma.
A degradação do Rio Paraíba do Sul, que atende a mais de 15 milhões de consumidores na região Sudeste, é uma das principais razões para esse problema. As barragens diminuíram o fluxo de água e, consequentemente, o transporte de sedimentos essenciais para a proteção da costa.
- Enfraquecimento do Rio Paraíba do Sul: a construção de barragens reduz o fluxo de água e o transporte de sedimentos;
- Ação humana: a interferência no curso natural do rio tem gerado desequilíbrios ambientais;
- Mudanças climáticas: o aumento do nível do mar e eventos de ressacas mais frequentes intensificam o problema.
Uma Localidade Sob Ameaça Internacional
A praia de Atafona ganhou o título de “Atlântida brasileira” devido à sua paisagem repleta de construções ruinosas. A região, que anteriormente abrigava mais de 14 quarteirões, agora encontra-se frequentemente submersa. A ONU listou Atafona como uma das 31 localidades mais ameaçadas do mundo por conta da elevação do nível do mar.
Um relatório divulgado em 2024 pela entidade global indicou que, entre 1990 e 2020, o nível do mar aumentou 13 centímetros na região, com projeção de subir mais 21 centímetros até 2050. Durante episódios de ressacas intensas, o mar chegou a avançar até 20 metros, devastando comunidades inteiras.
- Destruição rápida: quase 500 construções foram arrasadas, incluindo comércio, prédios e residências;
- Atenção mundial: a ONU classifica a região como em risco elevado;
- Ruínas submersas: a região é chamada de “Atlântida brasileira” em referência ao seu estado atual.
A aposentada Sônia Ferreira, que perdeu duas casas para o avanço do mar, testemunha a transformação: “Quando minha casa foi construída, estava a três quarteirões do mar. Em 2019, vi o mar chegar até bem próximo de onde eu morava”, conta.
Iniciativas para Mitigar os Danos
Em resposta à situação crítica, um decreto municipal de 2023 estabeleceu a interdição de residências em risco, seguindo a orientação da Defesa Civil. Moradores foram realocados para áreas com mais de 12 mil metros quadrados destinadas a programas habitacionais.
Além disso, a Prefeitura de São João da Barra iniciou um Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA), que visa entender e propor soluções para proteger a costa de Atafona. Especialistas de diferentes áreas estão sendo convocados para elaborar um planejamento que irá usar modelagem computacional e referências internacionais para traçar caminhos viáveis para o problema.
As consequências da erosão costeira em Atafona são evidentes, mas com um trabalho estruturado, a esperança é de que a situação possa melhorar nos próximos anos, garantindo a preservação da beleza natural e dos lares de muitos que foram afetados pela brutal invasão do mar.

