O bar Ministrão, localizado na Alameda Lorena, nos Jardins, área nobre de São Paulo, retomou as atividades nesta sexta-feira (17), após 15 dias de interdição pela Polícia Civil. O local havia sido fechado depois que a designer de interiores Radharani Domingos, de 41 anos, ficou cega por intoxicação causada por metanol, presente em uma vodca consumida no estabelecimento. Apesar da reabertura, a venda de bebidas destiladas segue proibida por determinação da Vigilância Sanitária.
A interdição do bar foi a primeira ação concreta dentro da operação que combate a venda de bebidas falsificadas e adulteradas com metanol na capital paulista. Na ocasião, cerca de 100 garrafas de bebidas destiladas foram apreendidas e o local autuado pela Secretaria Estadual da Saúde.
Um laudo médico confirmou que o corpo de Radharani apresentava níveis de metanol quatro vezes superiores ao limite capaz de provocar coma profundo e até morte. O caso acendeu um alerta sobre a gravidade da contaminação e desencadeou uma série de fiscalizações em bares e distribuidoras da cidade.
Em nota, a Vigilância Sanitária informou que a desinterdição foi concedida após nova inspeção técnica, mas restrita à venda de produtos que não estejam relacionados à investigação do caso. “A proibição de comercializar bebidas destiladas permanece até a conclusão dos laudos periciais do Instituto de Criminalística”, diz o comunicado.
A defesa do bar alegou que a reabertura foi autorizada após pedido administrativo e que todos os fornecedores de bebidas foram devidamente checados. “Apresentamos notas fiscais e comprovamos que o Ministro compra apenas de distribuidores oficiais. Nenhuma bebida ilegal foi encontrada”, afirmou o advogado Júlio Ribeiro, que considerou “exagerada” a interdição baseada no relato de uma única cliente.
Mesmo com a retomada parcial, o registro estadual de funcionamento do bar segue suspenso, e a defesa tenta reverter a decisão judicialmente. “Estamos discutindo administrativamente e judicialmente a reativação da inscrição estadual”, completou Ribeiro.
Radharani Domingos relatou, em entrevista ao Fantástico, que os sintomas começaram após beber três caipirinhas com frutas vermelhas e maracujá. Internada em estado grave, ela chegou a ser intubada e sofreu convulsões. “Era um bar em uma área nobre, nada suspeito. Bebi três caipirinhas e perdi a visão. Não estou enxergando nada”, contou.
Segundo o laudo médico, a concentração de metanol urinário em seu corpo foi de 415,9 mg/l — muito acima do limite de 100 mg/l, já considerado fatal. Médicos afirmam que valores como esse podem causar cegueira irreversível, coma e morte.
Paralelamente, a Prefeitura de São Paulo confirmou 21 casos de intoxicação por metanol registrados entre setembro e outubro, a maioria na Zona Sul. Entre as vítimas há adultos de 20 a 64 anos e uma adolescente de 16.
Nesta sexta-feira (17), a Polícia Civil deflagrou nova fase da operação contra a falsificação de bebidas alcoólicas. Foram cumpridos sete mandados de busca e apreensão contra integrantes de um grupo que produzia e distribuía destilados adulterados com metanol em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.
A investigação revelou ligações entre a fábrica clandestina e bares das zonas Sul e Leste da capital. Pelo menos três mortes — incluindo as de Ricardo Lopes Mira, 54, e Marcos Antônio Jorge Júnior, 46 — estão associadas às bebidas produzidas no local.
As autoridades também investigam dois postos de combustível que vendiam etanol adulterado com metanol, usado na fabricação ilegal de bebidas. Um dos estabelecimentos é citado na Operação Carbono Oculto, que apura o envolvimento da facção criminosa PCC na cadeia de distribuição de combustíveis.
O Ministério da Saúde já confirmou oito mortes por ingestão de metanol no Brasil — seis em São Paulo e duas em Pernambuco — e quase 150 casos suspeitos em todo o país. A substância, altamente tóxica, não deve ser usada em produtos de consumo humano e pode causar lesões cerebrais e cegueira permanente mesmo em pequenas doses.