O agronegócio brasileiro enfrenta diversos desafios estruturais que impactam sua competitividade e crescimento, conforme afirmações do diretor técnico da CNA, Bruno Lucchi. Durante o evento “Agenda Brasil – Crescimento, Emprego e Competitividade”, realizado em São Paulo, Lucchi destacou a importância de abordar questões como a situação fiscal do país, a escassez de mão de obra no campo e os altos custos logísticos.
Os desequilíbrios nas contas públicas tornam difícil para o governo realizar investimentos essenciais em infraestrutura e logística, fatores que são vitais para o setor agropecuário. De acordo com as projeções apresentadas por Lucchi, a relação entre dívida pública e PIB pode alcançar 95,5% até 2030, caso as políticas atuais permaneçam inalteradas. Isso pode afetar significativamente a competitividade do agronegócio.
Desafios e Propostas para o Agronegócio
Lucchi enfatizou que sem os investimentos adequados, os problemas de escoamento da produção se agravam. Entre as propostas, ele defendeu uma revisão de aproximadamente dez pontos relacionados à eficiência do gasto público, sugerindo que tais medidas poderiam gerar uma economia que se aproxima de 3% do PIB. Temas como emendas parlamentares, regras do arcabouço fiscal e os supersalários foram destacados como áreas prioritárias de discussão.
A CNA busca transformar diagnósticos em propostas legislativas e medidas para o Executivo, embora ainda não tenha revelado os projetos, enfatizando que pretende debater alternativas com parlamentares e candidatos antes das divulgações formais. Lucchi salientou que o avanço das medidas não recai apenas sobre o Executivo, e que o Congresso tem um papel central nas discussões necessárias, mesmo diante de resistências políticas.
“São medidas duras”, comentou, referindo-se à necessidade de rever questões sensíveis, como a Previdência e os supersalários. A abordagem cuidadosa em relação a estas questões é essencial para alcançar mudanças significativas e sustentáveis no agronegócio.
Escassez de Mão de Obra no Campo
A escassez de mão de obra é um dos desafios mais críticos enfrentados pelos produtores rurais. Lucchi mencionou uma pesquisa realizada pela CNA com mais de 2 mil produtores, que revelou um declínio no número de trabalhadores na produção primária. Surpreendentemente, essa redução ocorre mesmo com o crescimento do agronegócio como um todo.
Contrariando a noção comum de que a mecanização é a principal causa dessa diminuição, Lucchi argumentou que muitas vezes a mecanização resulta da dificuldade em recrutar trabalhadores. “Os produtores se vêem forçados a investir em tecnologia devido à escassez de mão de obra”, afirmou. Algumas atividades que demandam maior presença de trabalhadores, como a fruticultura e a horticultura, estão sendo abandonadas em favor de culturas de grãos que exigem menos mão de obra.
Fatores como a migração para centros urbanos e o aumento da escolaridade entre os trabalhadores estão exacerbando a escassez de mão de obra. Trabalhadores mais qualificados frequentemente buscam oportunidades em setores alternativos, o que desafia os produtores a manter suas operações em um contexto de crescente competição e demanda.
Tecnologia e Sustentabilidade no Agronegócio
Apesar da falta de mão de obra, a tecnologia continua sendo um aspecto essencial para a transformação do agronegócio. Lucchi acredita que, para assegurar o desenvolvimento sustentável do setor, é crucial garantir condições financeiras favoráveis para que os produtores realizem investimentos em tecnologia. Entretanto, o acesso ao crédito e as altas taxas de juros apresentam barreiras significativas para a implementação de inovações.
Para Lucchi, o ambiente de negócios precisa ser aprimorado, permitindo que os produtores preservem sua capacidade de investimento. A manutenção de políticas de crédito rural se revela fundamental, uma vez que os recursos não apenas beneficiam os produtores, mas também impactam toda a sociedade ao aumentar a oferta de alimentos e a estabilidade nos preços.
A CNA também defendeu avanços em políticas de seguro rural e outros mecanismos de gestão de risco, visando proporcionar maior proteção aos produtores em face de eventos climáticos adversos e oscilações financeiras. Embora o cenário atual continue desafiador, Lucchi vê a crise como uma oportunidade para discutir mudanças estruturais necessárias no financiamento e na proteção da atividade agropecuária.
Além disso, a dependência do Brasil em relação a fertilizantes é um tema que merece atenção. Lucchi sugeriu a criação de programas que visem reduzir essa vulnerabilidade, promovendo uma maior autonomia e sustentabilidade no setor.
Por fim, a segurança jurídica no campo se mostra imprescindível para a competitividade do agronegócio. Segundo o diretor da CNA, resolver problemas fundiários é tão vital quanto abordar questões de logística, crédito e gestão de risco. A CNA pretende utilizar os estudos apresentados durante o evento como base para discutir propostas legislativas com o Congresso Nacional e com os candidatos que se apresentarão nas eleições de 2026.

