O que começou como uma simples recomendação médica para aliviar dores crônicas acabou se transformando em uma trajetória de superação, mudança de vida e conquista inédita para o Brasil. Diagnosticada com fibromialgia e vítima de crises constantes de enxaqueca, Priscila Barkmann, de 35 anos, moradora de São Paulo, encontrou na dança não apenas um tratamento alternativo, mas também uma profissão e um propósito.
Mais de uma década depois de dar os primeiros passos na salsa, Priscila alcançou o ponto mais alto de sua carreira ao se tornar a primeira brasileira campeã mundial de salsa solo. O feito histórico aconteceu durante o WDSF Caribbean Dances World Championship, realizado nos dias 6 e 7 de dezembro, na Turquia, competição que reuniu cerca de 300 atletas de diferentes países e é organizada pela World DanceSport Federation (WDSF).
A vitória veio na categoria salsa solo feminino, modalidade que exigiu ainda mais da atleta nesta edição. Além da coreografia previamente ensaiada, os competidores precisaram demonstrar improviso, elevando o nível técnico e físico da disputa. Para Priscila, o desafio foi intenso, mas recompensador, especialmente no momento da premiação, quando ouviu o hino nacional brasileiro tocar no pódio.
A trajetória da dançarina começou em 2011, de forma pouco convencional. Na época, enfrentando dores generalizadas e crises frequentes de enxaqueca, ela recebeu do médico a recomendação de iniciar uma atividade física. Na receita, duas opções: natação ou dança. Priscila decidiu apostar nas duas, mas foi na salsa que encontrou uma verdadeira paixão.
Com o passar do tempo, os benefícios físicos ficaram evidentes. As crises de enxaqueca praticamente desapareceram, e a fibromialgia passou a ser controlada sem o uso constante de medicamentos. A dança deixou de ser apenas um exercício e se tornou, nas palavras da própria atleta, um verdadeiro remédio para o corpo e para a alma.
O que começou como hobby logo passou a disputar espaço com a carreira que Priscila mantinha fora dos palcos. Formada em Comunicação Institucional e em Publicidade e Propaganda, ela atuava na área de marketing quando percebeu que a dança ocupava cada vez mais seus pensamentos e seu tempo. A decisão de mudar de profissão não foi simples e enfrentou resistência familiar, principalmente pelo receio quanto à estabilidade financeira.
Apesar das dificuldades iniciais, Priscila construiu uma carreira sólida e respeitada. Obteve o DRT de bailarina pela Escola de Dança Teatro Guaíra, aprofundou seus estudos em danças cubanas em Havana, passou por escolas renomadas na Itália e na Colômbia e integrou companhias especializadas em salsa. Sua formação inclui experiências em países como Espanha, Alemanha, México e Cuba.
As competições vieram como consequência natural. Priscila acumulou títulos nacionais, como o tetracampeonato brasileiro, além de vitórias em torneios importantes como Dance Open Brasil e Brasil Latin Open. Em 2024, ao alcançar uma das melhores posições no ranking nacional, recebeu o convite oficial da Confederação Nacional de Dança Desportiva para representar o Brasil no mundial, com apoio integral da entidade.
A preparação para o campeonato internacional marcou uma nova fase em sua relação com o próprio corpo. Pela primeira vez, ela conseguiu estruturar uma rotina de treinos que respeitava os limites impostos pela fibromialgia, combinando musculação, natação, ensaios de dança, alongamentos, meditação e terapias não medicamentosas, sempre com acompanhamento profissional.
Hoje, além de atleta de alto rendimento, Priscila Barkmann também se destaca como professora e treinadora de solistas. Com aulas online, workshops no Brasil e no exterior e alunos já premiados nacionalmente, ela se tornou referência na formação de novos talentos da salsa, abrindo caminhos para que outros brasileiros alcancem reconhecimento internacional.
Ao olhar para sua própria história, Priscila define a dança como muito mais do que movimento ou competição. Para ela, dançar é cura, equilíbrio e conexão profunda entre corpo, mente e espírito — uma prova viva de que a superação pode nascer justamente da dor.