Polícia

Combate ao crime organizado exige mais que operações eficazes

O combate ao crime organizado demanda um enfoque multifacetado, como enfatizado por especialistas em segurança pública durante o IX Congresso Internacional IBSP-SP-2026 (Instituto Brasileiro de Segurança Pública), que teve como tema “Segurança, Cidadania e Ciência”.

O evento, realizado na sede do TJMSP (Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo) no dia 16 de setembro, abordou questões essenciais para a segurança pública, dividindo-se em quatro painéis. Entre os temas discutidos estavam a formação policial, as reformas constitucionais e legislativas, o uso das redes digitais e a inteligência artificial no enfrentamento das organizações criminosas, além do direito militar.

Os debates foram produtivos, com profissionais propondo soluções práticas para lidar com esse fenômeno complexo. Entre as estratégias mencionadas estão a fiscalização rigorosa das atividades que alimentam o comércio ilegal, a reforma do sistema prisional e mudanças na abordagem do trabalho policial.

O presidente do IBSP, coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo, Azor Lopes da Silva Júnior, destacou que operações que se concentram na apreensão de grandes quantidades de drogas não necessariamente promovem um impacto positivo na segurança da população. Para Azor, a realização de grandes operações isoladas não é indicativa de maior segurança para o cidadão, que pode permanecer vulnerável a crimes diários, como o roubo de celulares, mesmo com a realização de ações policiais consideradas eficazes.

Fiscalização como ferramenta eficaz

O coronel da reserva da Polícia Militar de Santa Catarina, Marlon Jorge Teza, defendeu que o fortalecimento da fiscalização policial é crucial para desmantelar as atividades comerciais que sustentam o crime organizado. Segundo ele, a polícia deve inspecionar estabelecimentos que lidam com produtos de origem ilícita, como ferros-velhos que recebem fios de cobre ou celulares roubados, e oficinas mecânicas que trabalham com peças adquiridas de forma ilegal.

A atuação da polícia, na visão de Marlon, precisa transcender a ideia de que uma ocorrência é bem-sucedida apenas se resultar em detenção. Ele mencionou o princípio de Robert Peel, que sugere que o êxito de ações policiais pode ser medido de maneiras além da prisão de infratores.

A importância da reabilitação no sistema prisional

Marlon também enfatizou a necessidade de reestruturação do sistema prisional. A construção de novas unidades não é a solução ideal; o foco deve ser a qualificação das prisões existentes, proporcionando infraestrutura adequada, separação de detentos quando necessário e desenvolvimento de programas de reeducação eficazes.

O coronel citou a criação da Polícia Penal como um progresso significativo e sublinhou a importância de ter profissionais especializados que possam abordar as necessidades sociais e familiares dos presos. A qualidade do sistema prisional se relaciona diretamente com a atuação das organizações criminosas, conforme destacou, defendendo que a melhoria das condições e métodos de tratamento dos detentos é vital tanto para aqueles que devem permanecer presos quanto para os que poderão reintegrar a sociedade.

Estratégias ampliadas na luta contra o crime organizado

O coronel Francisco Xavier Medeiros de Castro, chefe da Casa Militar de Roraima e pesquisador do IBSP, propôs que o Estado amplie a sua abordagem no combate ao crime organizado, indo além do foco nas lideranças das facções. Ele argumentou que identificar integrantes responsáveis por funções críticas, como lavagem de dinheiro, fornecimento de combustível e distribuição de armas, pode gerar rupturas significativas nas redes criminosas.

Essa estratégia, baseada no conceito de “laços fracos”, introduzido pelo pesquisador Bruno Requião, sugere que é possível atacar seletivamente aqueles que, embora não façam parte da liderança, desempenham papéis cruciais para o funcionamento das organizações criminosas. O coronel Alex Sander de Oliveira Toledo, da Polícia Militar de Minas Gerais e pós-doutor em Física Estatística e Termodinâmica, também enfatizou a importância de identificar e remover esses indivíduos, que são fundamentais para a operação das redes criminosas, mesmo sem ocuparem posições de destaque.

Essas discussões revelam que o combate ao crime organizado não pode se basear apenas em ações policiais padrão; é necessário um esforço coordenado e uma nova perspectiva que compreenda a complexidade do fenômeno. As lições aprendidas durante o congresso podem servir como base para a construção de políticas públicas mais eficazes e integradas, que visem não apenas prender criminosos, mas também prevenir o surgimento de novos crimes e promover a segurança da população.

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