Após 21 anos de ditadura militar, o Brasil vivenciou um período de redemocratização que culminou na eleição presidencial de 1989. Esse momento se destacou como um marco essencial para a nova fase política do país, encerrando um ciclo que durou de 1964 a 1985.
Em julho de 1989, durante o governo civil de José Sarney, o Brasil estava prestes a testemunhar o primeiro debate presidencial transmitido ao vivo pela televisão. O evento ocorreu pela TV Bandeirantes e se consolidou como um capítulo relevante na história política brasileira.
Após quase três décadas (1960 a 1989) sem eleições diretas para presidente, o pleito daquele ano contou com 22 candidatos à Presidência. A expectativa era alta, especialmente porque Fernando Collor de Mello (PRN), líder nas pesquisas, decidiu não participar do debate.
Os candidatos presentes ao debate nos estúdios da Band em São Paulo incluíam Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Leonel Brizola (PDT), Paulo Maluf (PDS), Roberto Freire (PCB), Affonso Camargo (PTB), Aureliano Chaves (PFL), Ronaldo Caiado (PSD), Mário Covas (PSDB) e Guilherme Afif Domingos (PL).
Silvio Santos, conhecido apresentador, tentou se candidatar à presidência, mas sua candidatura foi barrada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A decisão foi criticada por Mário Covas (PSDB), que considerou a atitude de Silvio um desrespeito à vontade popular. Assim, o apresentador não participou do debate.
Fernando Collor, que posteriormente avançou para o segundo turno junto a Lula, participou de debates apenas na etapa final da eleição.
O debate foi idealizado por Fernando Mitre, então responsável pelo Jornalismo da Band. Ele explicou que as regras do debate foram moldadas ao longo do processo, com reuniões bastante longas e complexas para determinar os detalhes.
Mediação e Conflitos no Debate
O evento foi marcado por desentendimentos e ataques entre os candidatos. A jornalista Marília Gabriela, mediadora do debate, revelou que se emocionou ao concluir o primeiro encontro com os presidenciáveis, considerando-o uma noite gloriosa. Ela compartilhou que teve que lidar com situações inesperadas durante a transmissão.
Durante o debate, Paulo Maluf atacou Leonel Brizola, argumentando que ele não tinha condições de ser presidente. Na réplica, Brizola se referiu a Maluf como um “filhote da ditadura”, evidenciando a hostilidade do ambiente.
Marília Gabriela ressaltou que a falta de respeito entre os presidenciáveis e o desrespeito pelas regras de tempo foram características marcantes daquele debate, demonstrando um cenário de insubordinação.
O Debate e a Disputa Entre Lula e Caiado
No decorrer do debate, Luiz Inácio Lula da Silva dirigiu uma pergunta a Paulo Maluf, mas Ronaldo Caiado interrompeu, solicitando que a questão fosse feita a ele. Lula respondeu sarcasticamente que quando Caiado “crescesse” nas pesquisas, ele faria a pergunta. Na eleição, Caiado obteve apenas 0,72% dos votos, terminando em décimo lugar.
A falta de preparo político foi notável entre os candidatos, pois muitos não estavam acostumados com a estrutura de um programa ao vivo. O artigo “Do caos à miséria: os debates dos candidatos à presidência do Brasil em 1989 e 1994“, de Edgar de Sousa Rego, observa essa falta de alinhamento e organização nas propostas.
Rego também destaca que, após esses primeiros anos de democracia, as campanhas eleitorais começaram a adotar estratégias de marketing mais sofisticadas, reflexo da evolução do cenário político. Apesar de mostrar uma nação que havia saído de uma ditadura civil-militar, os debates de 1989 refletiram um Brasil ansioso por reconstruir sua democracia.
Veja os candidatos que participaram do primeiro debate transmitido ao vivo pela televisão:
- Luiz Inácio Lula da Silva (PT);
- Leonel Brizola (PDT);
- Mário Covas (PSDB);
- Paulo Maluf (PDS);
- Affonso Camargo (PTB);
- Guilherme Afif Domingos (PL);
- Roberto Freire (PDT);
- Aureliano Chaves (PFL);
- Ronaldo Caiado (PSD).
Fernando Collor e Ulysses Guimarães foram convidados, mas não compareceram ao debate.

