A escolha de uma tatuagem pode carregar memórias, afetos e símbolos de identidade — e, para muitas pessoas negras, esse processo tem ganhado uma dimensão ainda mais profunda. Em vários estados brasileiros, cresce de forma consistente a procura por tatuadores especializados em técnicas adequadas para diferentes tonalidades de pele, impulsionada pelo desejo de registrar ancestralidade, religiosidade e pertencimento. Ao mesmo tempo, esse movimento expõe desigualdades históricas e demonstra como o racismo ainda influencia práticas, percepções e oportunidades no setor da tatuagem.
O caso da cliente atendida por Fabio Lopes, que buscou eternizar o pé de araçá do Quilombo Kalunga, é um exemplo desse fenômeno. A reação emocionada diante da tatuagem — que mistura a árvore às narrativas de origem e acolhimento — revela como a arte na pele pode resgatar histórias apagadas por séculos de marginalização. Para Fabio, que começou a tatuar em 2020 e hoje circula por diversos estados, seu trabalho se tornou também uma missão: desmentir o mito de que tatuagens “não funcionam” em peles negras e ampliar o acesso a esse universo.
A busca crescente por essa expressão corporal se contrapõe a uma crença preconceituosa que ainda persiste no imaginário popular e, segundo especialistas, surgiu e se reproduziu dentro de uma lógica racializada. A doutora em Mudança Social e Participação Política, Eliane Almeida, explica que o mito foi disseminado majoritariamente por profissionais brancos, reforçando uma barreira simbólica que afastou por muito tempo pessoas negras da tatuagem — mesmo que culturas africanas e indígenas tenham registrado marcas corporais há séculos, como parte de rituais, identidade e transmissão de conhecimento.
Esse resgate aparece também no uso de símbolos como os adinkras, referências religiosas, desenhos que conectam famílias e tradições e representações de orixás. O incômodo que muitas vezes surge, segundo Eliane, não está na prática em si, mas no fortalecimento da presença negra em espaços onde historicamente foi desencorajada. Para ela, quando pessoas negras tatuam suas próprias narrativas, desafiam estruturas raciais profundamente enraizadas.
A falta de formação técnica específica é outro ponto central. Profissionais experientes afirmam que, embora haja diferenças entre tatuar peles claras e escuras, todos os tons são plenamente tatuáveis quando se dominam os recursos adequados. A ausência desse preparo, contudo, ainda é frequente em escolas, cursos e materiais que seguem padrões internacionais desenvolvidos em países majoritariamente brancos. O resultado é que muitos tatuadores não sabem como lidar com melanina, contraste e saturação, o que afasta clientes e perpetua mitos.
Ubiratan Amorim e Rodrigo Koala, com longa trajetória no mercado, reforçam que peles negras exigem atenção ao contraste e ao uso de pigmentos mais concentrados no preto e cinza, sem impedir trabalhos de grande impacto visual. Já Hellen Zumbi destaca que o atendimento a clientes negros muitas vezes envolve reparar traumas causados por recusa de profissionais, comentários racistas ou tentativas de comparar resultados com peles de tons completamente distintos. Ela lembra ainda que algumas peles mais escuras podem ser naturalmente mais secas, exigindo cuidado especial na cicatrização.
A desigualdade também aparece no topo da cadeia do setor. Eventos como convenções de tatuagem seguem priorizando modelos brancos, jurados demandam contrastes inviáveis em peles escuras e categorias específicas ainda são raras — o que limita a visibilidade de artistas negros e reforça a ideia de que o corpo negro é uma exceção. Fabio Lopes critica esse modelo e afirma que a solução não está em dividir categorias por tom de pele, e sim em garantir equidade de critérios e representatividade real.
Apesar dos obstáculos, o movimento de valorização da estética negra cresce rapidamente, especialmente entre jovens que desejam se afirmar e se enxergar nas próprias histórias que carregam no corpo. Para pesquisadores e profissionais, esse avanço acompanha debates sobre identidade racial no país e o fortalecimento de referências positivas.
Eliane Almeida afirma que tatuar símbolos ancestrais é também uma forma de reconexão espiritual e cultural. Fabio reforça esse pensamento citando o princípio akan do sankofa: a ideia de que buscar conhecimento no passado é essencial para ressignificar o presente e construir o futuro. Para muitos clientes, a tatuagem se torna um espaço sagrado — um lugar onde a memória pode, enfim, ser preservada na própria pele.