Polícia

De abrigo improvisado a símbolo da PM: a trajetória do Cabo Caramelo, o vira-lata que conquistou Guarulhos e a internet

O que começou como uma simples tentativa de escapar da chuva acabou se transformando em uma história de afeto, engajamento social e milhões de visualizações nas redes sociais. O vira-lata que entrou discretamente na 1ª Companhia do 15º Batalhão da Polícia Militar, em Guarulhos, hoje é conhecido como Cabo Caramelo, mascote oficial da unidade e personagem querido pelo público dentro e fora da corporação.
A aparição aconteceu em um dia frio e chuvoso de 2024. Já adulto, o cachorro entrou no batalhão em busca de abrigo e chamou a atenção dos policiais, que decidiram não expulsá-lo. Com tapetes, papelões e um banco improvisado, eles montaram um canto para que o animal pudesse passar a noite protegido da chuva intensa. O gesto simples foi o início de um vínculo que se fortaleceria rapidamente.
No dia seguinte, o “novo integrante” ainda estava lá, em condições precárias, sujo, com carrapatos e sinais claros de abandono. Sensibilizados, os policiais deram banho, aplicaram medicamentos contra pulgas e providenciaram uma casinha mais adequada. Mesmo assim, o cachorro mantinha hábitos de rua: saía para passear pelo bairro e retornava sempre ao batalhão, onde encontrava segurança.
Para evitar que ele se perdesse, a equipe colocou uma plaquinha de identificação com o telefone da base policial. A estratégia funcionou, mas rendeu episódios curiosos. Moradores ligavam avisando que o cachorro estava na padaria, no espetinho ou na farmácia. Em alguns casos, se assustavam ao ouvir “Polícia Militar” do outro lado da linha. Com autorização do comando, viaturas chegaram a ser enviadas para buscar o mascote.
Foi nesse contexto que o vira-lata ganhou nome e patente. Entre brincadeiras, surgiu o “Cabo Caramelo”, título que rapidamente pegou entre os policiais e passou a fazer parte da rotina da companhia. O policial militar Luís Victor Alves de Oliveira, que viria a adotar o cachorro oficialmente, passou a registrar momentos do dia a dia do mascote e enviar os vídeos à esposa.
Sem grandes pretensões, ela criou um perfil nas redes sociais para compartilhar as imagens. O resultado foi imediato e surpreendente. Os vídeos começaram a viralizar, alcançando milhões de visualizações. Um deles, que mostra o Cabo Caramelo passeando tranquilamente por uma farmácia enquanto policiais vão atrás, ultrapassou 9 milhões de acessos. Hoje, o perfil soma mais de 250 mil seguidores.
Com a popularidade, surgiram conteúdos criativos que retratam o cachorro como um “agente especial” da PM, sempre com bom humor. Para não confundir com os cães oficiais do canil, o personagem ganhou um novo título carinhoso: “cãolicial”. A resposta do público foi tão positiva que a produção de vídeos passou a ser constantemente solicitada pelos seguidores.
A fama, no entanto, trouxe também preocupações. Em um dos episódios, o cachorro quase foi levado por uma pessoa que alegava tê-lo encontrado na rua. A situação fez com que Oliveira decidisse adotar definitivamente o animal, garantindo sua segurança. Hoje, o Cabo Caramelo mora com a família do policial, mas mantém uma presença frequente no batalhão, em uma “escala” bem-humorada criada pelos próprios colegas.
Mesmo vivendo fora da base, o mascote segue participando de ações institucionais e sociais da Polícia Militar. Ele é presença constante em atividades da ronda escolar, campanhas solidárias e eventos comunitários. O cachorro também ajudou a mobilizar doações para vítimas de enchentes no Rio Grande do Sul e estrelou campanhas de Natal da companhia.
A repercussão positiva acabou impulsionando outro projeto: a criação de uma ONG com o nome do mascote. A organização, idealizada por Oliveira e sua esposa, atua no resgate de animais vítimas de maus-tratos, cuida de animais domésticos e silvestres e promove ações sociais voltadas para crianças e comunidades carentes.
Neste ano, o Cabo Caramelo recebeu ainda uma medalha de Honra ao Mérito Canino, concedida por uma associação de veteranos, como reconhecimento simbólico por sua contribuição à aproximação entre a polícia e a população. Com cerca de quatro anos, o vira-lata que entrou apenas para fugir da chuva se tornou um símbolo de acolhimento, empatia e bom humor, consolidando-se como um fenômeno nas redes e um orgulho para a PM de Guarulhos.