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Esquema bilionário da Refit: como fraude no combustível ia do porto aos postos e movimentou R$ 70 bilhões

A megaoperação Poço de Lobato, deflagrada por uma força-tarefa nacional na manhã desta quinta-feira (27), revelou um dos maiores e mais complexos esquemas de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro já identificados no setor de combustíveis no país. Segundo a Receita Federal, a Refit — antiga refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro — estruturou, ao longo de anos, uma rede de empresas, fundos de investimentos e offshores capaz de movimentar mais de R$ 70 bilhões em apenas um ano, ocultando lucros e evitando o pagamento de tributos.

O modelo de fraude, apontam os investigadores, começava já na chegada dos combustíveis importados. A Refit e empresas parceiras adquiriam no exterior grandes volumes de nafta, hidrocarbonetos e diesel. Entre 2020 e 2025, esse montante superou os R$ 32 bilhões. As importações eram declaradas com informações falsas e descrição distorcida dos produtos, o que reduzia artificialmente os impostos devidos. Em operações anteriores, chegaram a ser retidos quatro navios da empresa, contendo 180 milhões de litros de combustíveis suspeitos.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) identificou uma série de irregularidades no processo operacional da refinaria, incluindo ausência de comprovação de refino adequado, suspeita de uso de aditivos não autorizados e inconsistências na documentação das cargas. Apesar de ter sido reaberta por decisão judicial em 27 de outubro, a empresa voltou a ser interditada dois dias depois por determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O esquema se estendia por toda a cadeia de comercialização, desde as formuladoras — responsáveis pela mistura e padronização do combustível — até as distribuidoras e os postos revendedores. Em todas essas etapas, segundo a Receita, havia sonegação sistemática de valores e manipulação de documentação.

O dinheiro obtido com a fraude era então canalizado para uma teia de investimentos e aquisições de bens de alto valor, dificultando o rastreamento pelas autoridades. A Receita identificou 17 fundos de investimento ligados ao grupo, somando patrimônio de R$ 8 bilhões — muitos deles fundos fechados com apenas um cotista, criando camadas de blindagem financeira.

A operação desta quinta envolve órgãos de diferentes esferas, como o Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo (Cira-SP), Ministério Público, Receita Federal, secretarias de Fazenda do estado e da capital paulista, além das polícias Civil e Militar. As ações ocorrem simultaneamente no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal.

No centro das investigações está o empresário Ricardo Magro, apontado como principal articulador do grupo. Ele comanda uma companhia que figura entre os maiores devedores de ICMS do país: líder no ranking paulista, segundo maior no Rio de Janeiro e um dos maiores inadimplentes da União. Até o momento, a defesa não se manifestou.

A Refit, procurada pela reportagem, não respondeu nesta quinta. Em nota divulgada em setembro, negou irregularidades, afirmou cumprir rigorosamente as normas da ANP e classificou a interdição como arbitrária. A empresa destacou sua certificação ISO 9001:2015, alegou investir na modernização da refinaria e garantiu operar com processos auditados e controlados.

Com a investigação avançando e a dimensão do esquema vindo à tona, a força-tarefa sustenta que a estrutura montada pela Refit tinha como objetivo final tornar invisível parte significativa dos lucros obtidos com a importação e comercialização de combustíveis no país, comprometendo a arrecadação pública e distorcendo a competição no setor.Refit