O Ministério Público do Rio Grande do Norte deflagrou, nesta quinta-feira (18), uma operação contra um esquema suspeito de movimentar R$ 50 bilhões em apostas ilegais na internet. Esta ação, denominada Operação Conto da Sorte, ocorre em conjunto com a Receita Federal e cumpre 14 mandados de busca e apreensão contra sete pessoas físicas e seis empresas investigadas nos estados de Pernambuco, São Paulo e Ceará.
As ordens judiciais, expedidas pela 2ª Vara da Comarca de Currais Novos, no Rio Grande do Norte, estão sendo cumpridas nas cidades de Recife, Caruaru e Toritama, em Pernambuco; Fortaleza, no Ceará; além de São Paulo e Iguape, no estado paulista.
Segundo o Ministério Público, a investigação apura os crimes de lavagem de dinheiro, induzimento à especulação, exploração de jogos de azar e loterias sem autorização, associação criminosa e crimes contra as relações de consumo. Essa operação tem como objetivo desmantelar um grande esquema de apostas, que utilizava diversas plataformas não regulamentadas.
A Receita Federal informou que o esquema operacional utilizava diversas bets ilegais – que funcionam sem a devida autorização da SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas) – e movimentava quantias bilionárias em jogos de apostas. O Secretário Especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, destacou que “50 bilhões é a somatória da movimentação entre 37 empresas identificadas”.
Investigação em Profundidade
A investigação revelou que o grupo criminoso implementava como principal estrutura a Lotseridó, projeto criado pela Prefeitura de Bodó, interior do Rio Grande do Norte, que conferia a aparência de legalidade a diversas plataformas de apostas em todo o país. A Prefeitura de Bodó afirmou que as empresas geraram cerca de R$ 415 milhões em um período de apenas 10 meses, com um repasse de R$ 8,3 milhões aos cofres municipais. Além disso, um dos envolvidos acumulou créditos de R$ 4,6 bilhões em 2025.
A Lotseridó foi encerrada em outubro de 2025. Contudo, as investigações apontam que as empresas credenciadas continuaram a operar sem a autorização necessária da SPA, ligada ao Ministério da Fazenda. A investigação teve início após análise técnica da SPA, contando com a colaboração da Receita Federal e apoio dos Ministérios Públicos e forças policiais de Pernambuco, São Paulo e Ceará.
Informações do Governo Federal indicam que alguns dos sócios ostensivos eram beneficiários de auxílio emergencial. Além disso, houve indícios de que algumas empresas estavam registradas em nome de parentes dos investigados e que várias delas operavam apenas como fachada, facilitando a movimentação financeira.
Golpes e Indução ao Erro
Conforme o Ministério Público, o esquema induzia os usuários a acreditar na legitimidade das plataformas através de técnicas digitais sofisticadas. Tais técnicas envolviam a invasão de sistemas de órgãos públicos e a inserção de códigos em páginas consideradas confiáveis, incluindo sites com domínios “.gov.br” e “.edu.br”. Essa adulteração gerava arquivos de indexação falsificados, direcionando os usuários para plataformas ilegais de apostas.
A tática visava aumentar a confiança dos apostadores nas apostas, conquistando um número maior de clientes para o esquema. As evidências revelam um cuidado meticuloso na criação de uma falsa percepção de segurança, utilizando a credibilidade dos sites governamentais.
Empresas de Fachada e Uso de Laranjas
A investigação demonstrou que os responsáveis pelo esquema criaram uma rede de empresas de fachada para facilitar tanto a intermediação de pagamentos quanto o suporte operacional das plataformas de apostas. Essas empresas eram frequentemente registradas em nome de pessoas sem a capacidade financeira correta, incluindo beneficiários de programas sociais e parentes dos investigados.
Apesar disso, os líderes do grupo mantinham o controle das contas bancárias por meio de procurações públicas. Outro dado alarmante é que várias empresas existiam em endereços inexistentes, salas comerciais vazias ou escritórios virtuais. As operações financeiras continuaram em algumas ocasiões mesmo após a baixa e extinção formal dos CNPJs na Receita Federal.
O MP identificou que os investigados conseguiram registrar 21 empresas no mesmo endereço considerado fictício no município de Bodó. Em uma medida para combater essa situação, em novembro de 2025, o MPRN obteve na Justiça o bloqueio de R$ 145 milhões em bens e ativos ligados aos investigados.
A medida garantiu o sequestro e a indisponibilidade de valores em contas correntes, aplicações financeiras, investimentos e planos de previdência privada. Também incluía o bloqueio de veículos e imóveis. O principal objetivo desta iniciativa é interromper o funcionamento do esquema e assegurar a recuperação de valores obtidos de forma ilícita.
A operação contou com a participação de seis promotores de Justiça, 19 servidores dos Ministérios Públicos do Rio Grande do Norte e de Pernambuco, 28 policiais civis e militares, além de auditores-fiscais e analistas tributários da Receita Federal.
A Receita Federal desempenhou um papel crucial na análise fiscal dos investigados, verificando a capacidade econômico-financeira de sócios e administradores, bem como identificando grupos econômicos formados para ocultar a movimentação financeira das empresas.
