Política

Falta de quórum trava análise da cassação de Lucas Bove na Alesp e provoca protesto de feministas

A sessão do Conselho de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), marcada para a manhã desta terça-feira (9), foi cancelada por falta de quórum e acabou se transformando em mais um capítulo da crise envolvendo o deputado Lucas Bove (PL), acusado de violência doméstica contra a ex-esposa, a influenciadora Cintia Chagas. Dos nove integrantes do colegiado, apenas três compareceram — todos eles parlamentares de oposição ou críticos do deputado — o que impediu a reabertura do processo de cassação que havia sido arquivado em agosto.

A reunião estava agendada para as 10h, mas apenas Delegado Olim (PP), presidente do Conselho, Emídio de Souza (PT) e Paula da Bancada Feminista (PSOL) registraram presença. Os cinco ausentes — Carlão Pignatari (PSDB), Altair Moraes (Republicanos), Rafael Saraiva (União Brasil), Eduardo Nóbrega (Podemos) e Oséias de Madureira (PSD) — são aliados de Bove e sua ausência simultânea foi interpretada por oposicionistas como um boicote organizado para impedir o avanço das discussões.

A pauta do encontro incluía não apenas o pedido de desarquivamento do processo disciplinar contra Bove, mas também outras ações relacionadas ao parlamentar, como representações feitas por ele próprio contra as deputadas Paula da Bancada Feminista e Mônica Seixas — as mesmas que o denunciaram por quebra de decoro. Havia ainda o exame da representação da deputada Ediane Silva (PSOL) contra o deputado Guto Zacarias (União Brasil), acusado de direcionar R$ 300 mil em emendas para uma entidade que produziu um gibi em que ele aparece como personagem principal.

Antes mesmo do cancelamento, feministas ligadas ao PSOL fizeram um protesto em frente à sala onde ocorreria a reunião, exigindo que o Conselho retomasse o caso e avançasse no processo de cassação. As manifestantes também pediram que as deputadas denunciantes permanecessem no colegiado, já que elas próprias são alvo de ações apresentadas por Bove.

A crise no Conselho de Ética se agravou com a saída do deputado Carlos Cezar (PL), nomeado para o Tribunal de Contas do Estado (TCE). Ele renunciou ao mandato em 27 de novembro, mas até agora a Alesp não definiu quem assumirá sua vaga no colegiado — outro fator que dificulta a formação de quórum mínimo para deliberações.

O caso de Lucas Bove continua repercutindo dentro e fora da Alesp. Em agosto, o Conselho de Ética decidiu arquivar a primeira representação contra ele por 6 votos a 1, mesmo diante do relato de agressões físicas, psicológicas e ameaças contra Cintia Chagas. Logo após o arquivamento, Bove e a deputada Mônica Seixas protagonizaram um intenso bate-boca no plenário, forçando a suspensão temporária dos trabalhos.

A polêmica se aprofundou no fim de outubro, quando o Ministério Público de São Paulo apresentou denúncia formal contra o deputado por perseguição, violência psicológica, agressões físicas e ameaças. A acusação detalha episódios ocorridos durante o relacionamento do casal, que foi casado por três meses em 2024, mas manteve convivência por mais de dois anos. Chagas havia registrado boletim de ocorrência no ano anterior, relatando uma sequência de abusos.

A defesa de Bove afirmou ter recebido com “enorme surpresa” a denúncia e classificou como “descabido” o pedido de prisão solicitado pelo Ministério Público. Os advogados reiteraram críticas ao vazamento de informações de um processo que tramita sob sigilo e alegaram que Cintia Chagas descumpriria determinações judiciais. A defesa reforçou ainda que o deputado confia na Justiça e seguirá empenhado em provar inocência.

Enquanto isso, o Conselho de Ética permanece travado, sem data definida para retomar a análise das representações. A nova ausência coletiva de aliados de Bove amplia a tensão na Casa e aumenta a pressão de movimentos feministas para que o caso avance.