Os feminicídios registrados em 2025 revelam um padrão de violência extrema que ultrapassa os limites do ambiente doméstico e ocupa ruas, locais de trabalho e outros espaços públicos. Casos recentes ocorridos na cidade de São Paulo escancaram que o assassinato de mulheres por ex-companheiros está diretamente ligado à tentativa de controle, à defesa de uma suposta “honra” masculina e ao ódio direcionado à figura feminina, segundo especialistas ouvidos por pesquisadores e autoridades.
Nomes como Tainara Souza Santos, Evelyn de Souza Saraiva e Camila Aparecida Montoro Cruz tornaram-se símbolos dessa escalada brutal. As agressões foram cometidas à luz do dia, diante de testemunhas e câmeras de segurança, evidenciando que a violência de gênero não se restringe ao lar. Tainara morreu após ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro; Evelyn foi executada com seis tiros dentro do próprio local de trabalho; Camila, que já sofria violência doméstica, também foi morta em via pública.
Dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, embora a residência da vítima ainda concentre a maioria dos feminicídios — cerca de 64% dos casos —, mais de um quinto das mortes já ocorre em vias públicas. Esse deslocamento da violência indica que, mesmo fora de casa, as mulheres continuam expostas ao risco, sobretudo após o fim de relacionamentos marcados por controle e agressões.
Em 2025, São Paulo registrou o maior número de feminicídios desde o início da série histórica da Secretaria da Segurança Pública, iniciada em 2018. Entre janeiro e outubro, foram contabilizados 53 assassinatos, o que equivale a uma mulher morta a cada cinco dias. Em todo o estado, o número chegou a 207 vítimas no mesmo período.
Para especialistas, o término da relação representa um dos momentos mais perigosos para a mulher. Com a ruptura da convivência, o agressor passa a perseguir a vítima em outros ambientes ligados à sua rotina, como o trabalho, a escola dos filhos ou locais de lazer. A rejeição desperta sentimentos de raiva, posse e humilhação, que se transformam em atos de violência extrema, muitas vezes praticados como forma de exibição pública de poder.
Esse comportamento se manifesta no chamado “overkill”, caracterizado pelo uso excessivo da força, repetição de golpes, mutilações ou múltiplos disparos. A violência não se limita a matar, mas busca simbolicamente destruir a vítima e reafirmar a dominação masculina. Especialistas destacam que, mesmo com câmeras e registros audiovisuais, muitos agressores não se sentem intimidados, pois o crime é motivado pela perda de poder e não pela expectativa de impunidade.
O enfrentamento ao feminicídio, segundo estudiosos e integrantes do sistema de Justiça, exige ações que vão além da punição penal. A proteção efetiva das mulheres, o monitoramento rigoroso de medidas protetivas, políticas públicas contínuas, educação de gênero desde a infância e programas de responsabilização dos agressores são apontados como pilares fundamentais para conter a violência e evitar novas mortes.