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“Foram 14 anos de abuso”: atleta denuncia professor de jiu-jitsu

"Foram 14 anos de abuso": atleta denuncia professor de jiu-jitsu

A campeã brasileira de jiu-jitsu Brenda Alves, de 27 anos, denunciou ter sido torturada e abusada durante 14 anos pelo seu ex-treinador Melqui Galvão. Em suas redes sociais, nesta terça-feira (5), ela publicou seu relato afirmando também ter sido vítima de agressões psicológicas e físicas.

Melqui foi preso preventivamente no último dia 28 de abril, em Manaus, suspeito de abusar sexualmente de outras seis alunas durante os treinos da categoria. A investigação acontece pela delegacia de Jundiaí, no interior de São Paulo.

Em seu relato, Brenda explica que conheceu o professor quando tinha apenas 12 anos. Na época, ela havia ido ao projeto dele com o intuito de seguir na carreira de atleta. Segundo a campeã, o treinador utilizou de seu momento de fraqueza para praticar os abusos.

“Ele dava tudo pra gente. Ele dava kimono, inscrição, conseguia patrocínios, estudei em escola particular, ele conseguiu bolsa pra mim… mas chegou o dia que eu tive que pagar por tudo isso. Ele chegou pra mim e falou que não era de graça que eu ia ter que pagar. Eu paguei da pior forma possível. Ele abusou de mim e esses abusos continuaram durante um bom tempo.”
Brenda Alves, atleta de jiu-jítsu

Segundo a atleta, aos 16 anos, ela descobriu que ele também abusava de outras alunas. Com o tempo, pessoas próximas a ele começaram a suspeitar da prática dos crimes e, para disfarçar, ele a obrigou a ter um relacionamento com um outro aluno.

“Ele arrumou um plano pra mim. Ele me fez namorar um menino da academia contra a minha vontade. Esse plano era pra disfarçar, para não descobrirem que eu também era abusada por ele“, revelou.

Controle e Manipulação

A atleta diz que Melqui chegou a criar um projeto nos Estados Unidos, onde ela foi para lutar o mundial de jiu-jitsu. Logo depois, mesmo ela morando no Brasil, ele continuava a perseguir psicologicamente.

“Ele nunca deixou de me controlar. Ele sempre teve ali. Ele sempre mantinha contato comigo por esses anos todos. Ele sempre me coagia, sempre me mandava mensagem, sempre me deixava ali, por eu já saber de quem ele era, de tudo que eu já tinha passado ali. Então ele já sabia que eu com certeza ia fazer tudo que ele queria“, explicou.

Durante uma confusão entre ela, seu ex-namorado e Melqui, eles decidiram sair da academia. Revoltado, o treinador teria feito os atletas perderem contratos e patrocinadores.

Ele quis punir a gente também. Nesse tempo a gente tinha uma equipe de patrocinadores e ele foi falando com cada um pra esses patrocinadores desligarem a gente, das marcas e tudo.
Brenda Alves, atleta de jiu-jítsu

Brenda disse que, logo após ser desligada da academia, continuou sendo perseguida e humilhada por ele. Segundo ela, Melqui teria chegado a estuprar também de sua irmã. “Por isso que eu falo pra vocês que são 14 anos de tortura, tortura mental, física, né, ele já chegou a me bater, fora as palavras horríveis que ele falava pra mim”, conta.

A atleta conclui seu relato encorajando outras meninas a denunciarem e afirma que já realizou uma denúncia oficial contra o ex-treinador. “Então quero falar pra vocês que eu já fiz a minha denúncia, minha irmã também, quero encorajar vocês a fazerem“, concluiu.

Denúncias e Prisão de Melqui Galvão

As investigações contra Melqui iniciaram após uma atleta, de 17 anos, denunciar o treinador por abusos sexuais enquanto ela participava de uma competição esportiva na Itália.

Segundo o depoimento da vítima, o homem teria tentado ocultar as provas da jovem ao invadir o celular dela, além de tentar coibir os pais, que souberam do caso pela filha, com promoções profissionais e financeiras, inclusive a montagem de uma academia fora do país.

A partir disso, outras duas vítimas foram identificadas e ouvidas pela 8ª Delegacia de Defesa da Mulher. Uma delas tinha apenas 12 anos quando o crime ocorreu.

A polícia ouviu os pais das outras jovens que apresentaram uma prova contra o sujeito sobre uma gravação na qual Melqui Galvão admite ter cometido o crime de forma indireta, além de interações entre a aluna e o treinador que demonstram indícios do crime cometido.

De acordo com Mariene Andrade, delegada do caso, diante dos relatos, foi preciso solicitar a prisão temporária do suspeito, expedida pela Justiça do Estado de São Paulo, pois a permanência do suspeito em liberdade poderia prejudicar as investigações. Essa medida foi tomada após as investigações concluírem que Melqui já tentou ocultar as provas e silenciar as vítimas e os envolvidos em outros momentos.

Melqui Galvão, além de treinador de jiu-jítsu, também era instrutor de defesa pessoal dentro da Polícia Civil do Amazonas. Assim que tomou ciência do caso, a instituição afastou-o das funções até a conclusão das apurações. Além disso, ela também investigará a regularidade do vínculo funcional e das possíveis incompatibilidades no exercício de atividades em outros estados.

A Polícia Civil do estado também encaminhou o caso à Corregedoria-Geral do Sistema de Segurança Pública, com o intuito de instaurar um procedimento administrativo disciplinar de apuração das atividades realizadas pelo treinador.

Em nota, o Tribunal de Justiça de São Paulo informou que o processo está em segredo de justiça. As investigações prosseguem e aguardam a lauda pericial dos aparelhos apreendidos.

A CNN Brasil aguarda retorno do lutador Melqui Galvão com um posicionamento. O espaço segue em aberto.

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