A Justiça de São Paulo condenou o cabeleireiro Diego Beserra Ernesto, dono de um salão no bairro de Perdizes, Zona Oeste da capital, pelos crimes de injúria racial e discriminação por raça e orientação sexual. A decisão, proferida na quarta-feira (29) pela juíza Manoela Assef da Silva, da 15ª Vara Criminal, também determinou o pagamento de mais de R$ 30 mil em indenizações por danos morais.
Diego ficou conhecido em 2023 após a divulgação de áudios nas redes sociais em que ele dizia não contratar pessoas “pretas, gordas ou viadas”, entre outras ofensas. As declarações racistas e preconceituosas foram enviadas por mensagem de celular a um cabeleireiro negro, Jeferson Dornelas, que alugava uma cadeira no salão para atender suas clientes.
Na ocasião, os dois conversavam sobre uma candidata a emprego, a profissional de beleza Ana Carolina Alves de Souza, que havia demonstrado interesse em trabalhar no local, mas desistiu da vaga. Em resposta, Diego enviou um áudio a Jeferson dizendo: “Eu não contrato preto. Eu não contrato gorda. Eu não contrato viado. E no caso do preto, é porque alguns se fazem de vítimas da sociedade.”
Em outros trechos, o empresário ainda debocha da aparência e da postura da mulher: “Ela é gorda e preta. Não cuida nem do próprio corpo. Como vai ter responsabilidade na vida?”, afirmou. Ele também fez comentários preconceituosos sobre feministas e homossexuais, rindo das próprias falas: “Não contrato mais viado, principalmente viado. Só se estiver mentindo.”
As declarações causaram indignação pública e levaram o Ministério Público e a Polícia Civil a investigarem o caso. O inquérito concluiu que Diego adotava práticas discriminatórias no ambiente de trabalho, contratando apenas pessoas brancas, magras e heterossexuais.
Durante o processo, o empresário confirmou ser o autor das gravações, mas negou que tivesse intenção de discriminar alguém. A juíza, no entanto, entendeu que os áudios demonstram preconceito evidente e ofensa à dignidade das vítimas. A sentença fixou pena de 2 anos e 4 meses de prisão em regime aberto, substituída por prestação de serviços à comunidade.
Além da condenação criminal, Diego deverá pagar R$ 15 mil de indenização à vítima Ana Carolina e outros R$ 15 mil a um fundo destinado à promoção da igualdade racial. O advogado de defesa, José Miguel da Silva, afirmou que irá recorrer da decisão às instâncias superiores.
Ana Carolina, que na época relatou ter se sentido “violada” e “excluída”, não foi localizada para comentar o desfecho do caso. Jeferson, que denunciou o crime, também não quis se pronunciar.
O episódio reacende o debate sobre o racismo estrutural e a discriminação no mercado de trabalho, especialmente em setores como o da beleza, que frequentemente reforçam padrões excludentes de aparência e comportamento.