Massacre Operação Rio de Janeiro

Letalidade recorde: operação no Rio deixa 138 mortos e ultrapassa o Massacre do Carandiru

A megaoperação das forças de segurança do Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho (CV), realizada na terça-feira (28), se tornou a ação policial mais letal da história do estado — e também do século 21 no Brasil. O número total de mortos já ultrapassa o do Massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, em São Paulo.

De acordo com o governo fluminense, até a manhã desta quarta-feira (29) foram confirmadas 64 mortes — 60 suspeitos e quatro policiais. No entanto, moradores dos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, relataram ter encontrado mais 74 corpos em áreas de mata e becos das comunidades. Se esses números forem oficialmente reconhecidos, o total de vítimas sobe para 138, sendo 134 suspeitos e quatro agentes de segurança.

A operação, batizada de “Contenção”, teve mais de 12 horas de confrontos intensos, com cenas de guerra urbana. Criminosos usaram drones, bombas caseiras e barricadas para dificultar o avanço das tropas. A ação mobilizou centenas de agentes da Polícia Militar, Civil e das Forças Especiais com o objetivo de cumprir 69 mandados de prisão em 180 endereços e conter o avanço territorial do Comando Vermelho.

O governador Cláudio Castro (PL) classificou a operação como “a maior da história das forças de segurança do Rio” e afirmou que o estado “está sozinho” no combate ao crime organizado. O Ministério da Justiça, por sua vez, declarou que tem atendido aos pedidos de cooperação enviados pela gestão fluminense.

A comparação com o Massacre do Carandiru é inevitável. Em 2 de outubro de 1992, 111 presos foram mortos após a Polícia Militar invadir o Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo para conter uma rebelião. O episódio, até então o mais letal da história brasileira, foi símbolo da violência policial e da impunidade — sobretudo após o Tribunal de Justiça de São Paulo extinguir, em 2024, as penas dos 74 policiais condenados pelo caso, beneficiados por um indulto de Natal concedido em 2022 pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL).

Além do Carandiru, outros episódios de extrema violência marcaram a história recente do país, como os “Crimes de Maio” de 2006, em São Paulo, que deixaram 564 mortos durante confrontos entre o PCC e as forças de segurança. Mais recentemente, as operações Escudo e Verão, realizadas em 2023 na Baixada Santista, resultaram na morte de 84 pessoas.

Diante do novo massacre, entidades de direitos humanos voltaram a denunciar a escalada da violência policial no Brasil. A ONG Artigo 19 Brasil e América do Sul, braço da organização internacional Article 19, condenou o que chamou de “ação de Estado que penaliza o povo preto e pobre” e cobrou o fim da militarização nas favelas. Em nota, a entidade afirmou que a letalidade policial restringe liberdades, gera medo e impede que moradores e jornalistas atuem livremente nos territórios.

A operação no Rio expõe, mais uma vez, a falta de coordenação entre as esferas de governo e reacende o debate sobre os limites da força policial. Enquanto autoridades estaduais defendem a ação como necessária ao enfrentamento do crime organizado, familiares de vítimas e movimentos sociais denunciam uma política de segurança pública que, mais uma vez, deixa centenas de mortos nas periferias.