Moradores do bairro de Perus, na Zona Noroeste de São Paulo, vivem dias de preocupação e mobilização desde que veio à tona o plano da Prefeitura de São Paulo de instalar uma usina de incineração de lixo no terreno do desativado Aterro Bandeirantes. O projeto, batizado de Unidade de Recuperação Energética (URE) Bandeirantes, faz parte de uma estratégia de longo prazo da gestão Ricardo Nunes (MDB) para transformar parte dos resíduos urbanos em energia elétrica por meio da queima controlada do lixo.
A proposta prevê três unidades semelhantes na capital — além da de Perus, outras duas estão previstas para as regiões de Santo Amaro, na Zona Sul, e São Mateus, na Zona Leste — e deve ser executada em até 20 anos. Segundo a administração municipal, as concessionárias Loga e Ecourbis serão responsáveis pela implementação e operação das usinas, sob supervisão da SP Regula, autarquia que coordena o sistema de limpeza urbana da cidade.
Cada URE terá capacidade para processar mil toneladas de lixo por dia e contará com tecnologia para controlar as emissões poluentes. O prefeito Ricardo Nunes defende a iniciativa, destacando experiências internacionais, como as usinas japonesas, que transformam resíduos em energia e reduzem o volume de lixo em até 80% “sem causar danos ambientais”.
Entretanto, em Perus, o projeto tem gerado forte reação popular. Moradores e coletivos locais afirmam que não houve diálogo com a comunidade e exigem a suspensão do processo de licenciamento ambiental até a realização de audiências públicas. “O bairro já conviveu por décadas com os impactos do antigo aterro. Agora, voltamos a enfrentar o risco de poluição e degradação”, afirma a química e pesquisadora Thaís Santos, moradora da região e integrante do movimento “Incinerador de Lixo em Perus, Não”.
O grupo tem realizado protestos e reuniões para pressionar a prefeitura e a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) a priorizarem medidas mais sustentáveis, como reciclagem, compostagem e incentivo às cooperativas de catadores — ações previstas no Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PGIRS).
A preocupação da população é reforçada pela localização do antigo aterro: a área fica próxima à Terra Indígena do Jaraguá e ao Parque Anhanguera, o segundo maior parque urbano da capital. Há receio de que a presença de biogás e metano remanescente do aterro desativado possa gerar riscos de explosões e incêndios. Especialistas apontam ainda possíveis impactos indiretos sobre a fauna e a qualidade do ar da região.
Apesar da resistência, há quem veja nas usinas uma alternativa técnica à saturação dos aterros sanitários, que já operam próximos do limite. O engenheiro Douglas Freitas, especialista em gestão de resíduos, afirma que a incineração pode ser uma solução viável desde que rigorosamente controlada e fiscalizada. “A tecnologia atual permite realizar o processo de forma segura e com baixo impacto ambiental”, defende.
Freitas, contudo, reconhece o dilema social envolvido: “Projetos desse tipo costumam ser instalados em áreas periféricas, o que acentua desigualdades urbanas. Todos querem o lixo recolhido, mas ninguém quer a usina perto de casa.”
A discussão sobre o tema reflete um impasse maior na capital paulista. Dos cerca de 12 mil toneladas de resíduos produzidos diariamente, menos de 3% são reciclados. A separação incorreta e o desinteresse da indústria limitam o avanço da reciclagem, tornando o processo caro e ineficiente.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que as audiências públicas serão realizadas antes da implantação das UREs e que o objetivo é reduzir a dependência dos aterros sanitários, gerar energia limpa e criar empregos. A Cetesb confirmou que o Estudo de Impacto Ambiental do projeto ainda está em análise e que nenhuma licença foi emitida até o momento.
Enquanto isso, a população de Perus segue dividida entre a promessa de modernização do tratamento de lixo e o temor de reviver antigos problemas ambientais que marcaram a história do bairro.