O Ministério da Saúde lançou, nesta terça-feira (30), um conjunto de medidas para preparar o SUS (Sistema Único de Saúde) para os impactos climáticos do El Niño e a saúde pública. O plano, que está inserido no programa AdaptaSUS, prevê investimentos de R$ 9,8 bilhões até 2035 para aumentar a capacidade de resposta da rede pública diante de eventos climáticos extremos.
O El Niño teve início neste mês de junho e é definido como um padrão climático periódico no Oceano Pacífico tropical que altera os ventos e deixa as águas excepcionalmente quentes no Pacífico central e oriental. Essas mudanças têm efeitos em cascata nos padrões climáticos em todo o mundo, afetando diretamente a saúde pública.
Segundo a pasta, o programa será baseado em cinco frentes: vigilância e alertas, coordenação entre governos, comunicação com gestores e população, fortalecimento da capacidade de atendimento e reforço de medicamentos, vacinas, água potável e outros insumos. O plano também prevê a criação de um painel permanente de especialistas que orientará as ações do governo.
Entre as iniciativas anunciadas está o lançamento do Painel Nacional de Excesso de Calor, ferramenta que permitirá emitir alertas com até cinco dias de antecedência para todos os municípios brasileiros, integrando dados meteorológicos e indicadores de vulnerabilidade social. O objetivo é antecipar riscos e permitir que estados e municípios organizem o atendimento antes do início das ondas de calor.
O investimento também prevê a implantação de oito Centros Integrados de Saúde e Clima (CISC) distribuídos pelas cinco regiões. Segundo a pasta, as unidades reunirão informações sobre clima, saúde e vulnerabilidade social para orientar respostas rápidas do SUS.
El Niño virá mais forte; veja impactos e áreas que devem ser mais afetadas
O primeiro centro será inaugurado em Salvador (BA) nesta quarta-feira (1). Além do CISC, o ministério também lançará a base regional da Força Nacional do SUS na Bahia. Com o programa, a Força Nacional do SUS será expandida para oito bases regionais. Segundo a pasta, essa descentralização permitirá ampliar em até 20 vezes a capacidade de pronta resposta em desastres e emergências sanitárias.
Na área de pesquisa, o governo lançou a maior edição do PET-Saúde Clima, com 197 projetos, 12,6 mil bolsas e investimento de R$ 266 milhões para financiar soluções voltadas aos impactos das mudanças climáticas nos estados.
O plano também inclui orientações específicas para proteger idosos durante períodos de calor extremo, além da adoção nacional do protocolo desenvolvido em parceria entre o Ministério da Saúde, a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde).
Impactos climáticos do El Niño no Brasil
No segundo semestre de 2026, o Brasil deve enfrentar a formação de um fenômeno que especialistas chamam de “super El Niño”. De acordo com informações divulgadas, o evento pode causar impactos no clima do planeta que podem durar até o ano de 2027, afetando a saúde pública e a segurança alimentar.
Para Claudio de Brito Neri, professor de Geografia do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré, apesar do fenômeno parecer distante do dia a dia, ele impacta a vida de milhões de brasileiros. “Isso fica claro quando analisamos períodos anteriores, em que suas consequências foram desde problemas na produção de alimentos até crises no abastecimento de água e enchentes”, disse.
Na região Norte, a expectativa é de seca e redução no volume de chuvas, o que faz com que os rios baixem de nível, dificultando o transporte de pessoas e mercadorias. As comunidades ribeirinhas são as primeiras a sofrer com a dificuldade de acesso a alimentos, medicamentos e atendimento médico. Outro fator preocupante é que o clima mais quente e seco aumenta a incidência de queimadas e incêndios florestais.
No Nordeste, a consequência é a redução das chuvas e a escassez de água. Com menos precipitações, os reservatórios recebem menor volume hídrico, o que afeta o abastecimento e a produção agrícola. A maior intensidade do calor também aumenta o risco de incêndios em áreas de vegetação, criando desafios adicionais para a saúde pública, como doenças respiratórias.
No Centro-Oeste, os efeitos tendem a ser menos intensos, porém o aumento da temperatura também reduz a umidade do ar, cenário que favorece queimadas. Algumas áreas podem, no entanto, registrar chuvas dentro da média, elevando a umidade do solo e ajudando a mitigar alguns problemas de saúde relacionados à desidratação.
A região Sudeste apresenta histórico mais variável: há locais com chuvas intensas e outros com períodos prolongados de estiagem e predominância de calor, fenômeno conhecido como “veranico”. Capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Vitória podem registrar ondas de calor mais intensas que o normal, aumentando o consumo de energia elétrica e gerando riscos de saúde, como desidratação e doenças relacionadas ao calor.
A região tradicionalmente mais afetada no Brasil é o Sul, onde o principal efeito é o excesso de chuva, ocasionando enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra. Os três estados (PR, SC, RS) costumam enfrentar temporais mais frequentes e chuvas acima da média, o que impacta a saúde pública, especialmente em relação ao saneamento e ao controle de doenças.
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo
