O Ministério Público do Estado de São Paulo deu início à Operação Janus nesta terça-feira (21), em uma ação decisiva contra uma rede de financiamento e lavagem de dinheiro associada ao PCC (Primeiro Comando da Capital). A investigação do MP destaca ligações entre doleiros, empresários e membros de altas patentes da Polícia Militar do estado.
As apurações, fundamentadas em mensagens interceptadas e registros de transações financeiras, trouxeram à tona os nomes de oficiais de alta patente da Polícia Militar. Estes, no entanto, não estão sendo investigados diretamente e não foram denunciados.
Os policiais mencionados no relatório incluem o coronel Pereira Martins, o coronel José Augusto Coutinho e o coronel “Patrício”.
Martins é retratado como alguém com uma relação de amizade com os alvos investigados, incluindo Cléber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza. Documentos sugerem que o oficial participava de grupos de conversa e estava disposto a fazer intermediações com outras autoridades.
Coutinho, que já foi comandante geral da Polícia Militar e da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), aparece em conversas de indivíduos sob investigação, indicando uma possível ligação com o operador financeiro Amjad Ahmad.
O coronel “Patrício” é listado em registros financeiros do grupo criminoso como um “cliente”, com anotações de pagamentos em dinheiro proveniente de atividades ilícitas, conhecidas como “ticketagem”. Outras mensagens revelam que os envolvidos estavam buscando levantar fundos para “pagar a polícia”.
Operação mira grupo de financiamento do PCC e “tribunais do crime” em SP
Esquema de Doleiros e Lavagem de Dinheiro
Conforme relatado pelo MP, a estrutura de lavagem de dinheiro que estava em operação dependia de doleiros e operadores financeiros que ocultavam recursos da facção. Dois nomes são recorrentes nesse contexto.
Raphael Flores Rodriguez, conhecido como “Batata”, é apontado como uma conexão essencial entre o PCC e os doleiros, possuindo um histórico criminal relacionado a movimentações financeiras em favor da facção.
Além disso, o relatório menciona Amjad Ahmad, responsável por gerenciar o esquema a partir do Tatuapé, trabalhando em parceria com outros lavadores de dinheiro para ocultar rendimentos e facilitar operações de comércio exterior.
Banco e Tribunais do Crime
A investigação revela que o grupo funcionava como um verdadeiro “banco” para movimentação de recursos ilegais. Um dos principais clientes era Leonador Monteiro Moja, conhecido como “Léo do Moinho”, que é descrito como o líder da facção na Favela do Moinho, no centro de São Paulo.
O empresário Cléber Azevedo dos Santos, mencionado nas investigações, buscou o auxílio de “tribunais do crime” do PCC para resolver questões imobiliárias. Em um caso específico, o conflito girou em torno de um imóvel de luxo em Riviera de São Lourenço, cuja resolução envolveu a intervenção direta de lideranças da facção.
Durante a operação de terça-feira (21), 11 suspeitos foram presos e cinco continuam foragidos. Entre os que já estavam detidos e alvo de novos mandados, destacam-se:
- Cléber Azevedo dos Santos (preso)
- Robson Martins de Souza (preso)
- Antonio Carlos Ubaldo Junior (preso)
- Paulo Rogério Silva, conhecido como “Paulo Barão” (preso)
- Odair Alves da Silveira Filho (preso)
- Leonardo Meirelles (foragido)
- Marlon Antonio Fontana (preso)
- Bruno Ramos Fernandes (preso)
- Meire Bomfim da Silva Poza (preso)
- Leonardo Monteiro Moja, conhecido como “Léo do Moinho” (preso)
- Danillo Vinicius da Silva Rosario
- André de Souza Haddad, também chamado de “Minhoca” (preso)
- Antonio Carlos Sampaio, conhecido como “Kaka”, “Dakar” ou “Compadre” (foragido)
- Alexandre Viriato da Silva, conhecido como “Gordão” ou “Gordinho” (preso)
- Alexandre Salles Brito, conhecido como “Buiu” (preso)
- Raphael Flores Rodriguez, conhecido como “Batata” (foragido)
- Amjad Ahmad, conhecido como “Amim” (foragido)
- Marcelo de Morais Oliveira (preso)
A CNN Brasil está em busca do contato da defesa dos investigados e dos policiais mencionados, mantendo espaço para manifestações.
Compreendendo a Operação Janus
A Operação Janus é um desdobramento de investigações anteriores, incluindo as Operações Bazaar, Recidere e Salus et Dignitas, visando aprofundar a análise de indivíduos suspeitos de movimentar recursos financeiros e de realizar troca de dinheiro em espécie por transferências bancárias.
Os envolvidos também estariam envolvidos na ocultação e movimentação de valores relacionados à organização criminosa, com operações que incluíam entregas de dinheiro, transferências bancárias, uso de empresas e contas de terceiros em benefício do PCC.
PCC supera cartéis e lidera ranking de facções nas Américas, diz estudo
A investigação revelou participação dos suspeitos em reuniões para resolver conflitos patrimoniais resolvidos por integrantes da facção, conhecidos como “tribunais do crime”. Com as prisões e buscas, a Justiça também autorizou medidas cautelares patrimoniais, que incluem bloqueio de contas bancárias, imóveis e veículos atribuídos aos investigados.
As decisões judiciais estabelecem o bloqueio de ativos financeiros de indivíduos investigados até o limite de R$ 10 milhões, além de medidas de constrição contra empresas ligadas à estrutura financeira da facção.
PCC sem fronteiras: como funciona a expansão internacional das facções
O cumprimento dessas ordens judiciais envolve diversas equipes da Polícia Militar. O nome da operação, Janus, faz alusão a uma divindade romana associada às transições e passagens, simbolizando a movimentação de recursos entre o dinheiro em espécie e o sistema financeiro formal.
