Política

Policial militar que matou jovem negro com 11 tiros em mercado da Zona Sul é julgado em São Paulo

O policial militar Vinicius de Lima Britto, acusado de executar o jovem negro Gabriel Renan da Silva Soares, de 26 anos, está sendo julgado nesta quinta-feira (9) no Fórum Criminal da Barra Funda, na Zona Oeste de São Paulo. O júri popular, que teve início às 10h53, analisa a acusação de homicídio qualificado contra o agente, que disparou mais de dez tiros pelas costas da vítima após um furto em um mercado da rede Oxxo, na Zona Sul da capital, em novembro do ano passado.

De acordo com as investigações, Gabriel havia furtado quatro pacotes de sabão da seção de limpeza do estabelecimento na Avenida Cupecê, no bairro Jardim Prudência. As câmeras de segurança registraram o momento em que ele tenta deixar o local, escorrega em um pedaço de papelão e cai no chão do estacionamento. Nesse instante, o policial Vinicius, que estava à paisana e fazia compras no mercado, percebe a situação, saca a arma e dispara várias vezes contra o jovem, que já se encontrava de costas e em fuga. Gabriel morreu no local, atingido por 11 tiros, segundo o boletim de ocorrência.

Durante a audiência, sete testemunhas estavam arroladas, mas apenas três foram ouvidas: os pais da vítima e o caixa do mercado, que presenciou o crime. O funcionário, classificado como testemunha protegida, prestou depoimento por cerca de uma hora antes que o plenário fosse esvaziado para garantir sua segurança. Logo depois, os pais de Gabriel relataram, entre lágrimas, o impacto da perda.

A mãe do jovem, Silvia Aparecida da Silva, contou que tenta manter a força para seguir em frente, mas admite que a dor ainda é insuportável. “Prometi para o Gabriel que vou ficar bem para ele descansar em paz, mas está muito difícil. Ele faz muita falta. Qualquer detalhe me lembra dele. E o pior é saber que não tem jeito, ele não volta mais”, desabafou.

O policial Vinicius, preso preventivamente desde 5 de dezembro no Presídio Romão Gomes, alegou em depoimento que atirou por acreditar que o jovem estava armado, dizendo ter visto um movimento suspeito da mão dele no bolso do moletom. Contudo, as imagens de segurança desmentem a versão: nelas, Gabriel aparece desarmado e correndo, sem representar qualquer ameaça.

O caso ganhou grande repercussão e reacendeu o debate sobre o racismo estrutural e a letalidade policial no país. Movimentos sociais e grupos de direitos humanos acompanharam a abertura do júri, exigindo uma condenação exemplar e o fim da impunidade em crimes cometidos por agentes do Estado.

As informações reveladas durante a investigação também apontam que o policial não deveria sequer ter ingressado na corporação. Em 2021, Vinicius havia sido reprovado no exame psicológico do concurso da Polícia Militar, considerado inapto para o cargo por apresentar “inadequação” nos critérios de relacionamento interpessoal, liderança e controle emocional. Mesmo assim, após contestar judicialmente o resultado e procurar acompanhamento psicológico particular, ele foi aprovado em um novo processo seletivo em 2022 e passou a integrar as fileiras da PM paulista.

Segundo a mãe, Gabriel era usuário de drogas e vinha tentando se recuperar do vício. Ele foi morto cinco dias antes de completar 27 anos. Para a família, nada justifica a execução brutal: “Ele errou, mas merecia uma chance de recomeçar. Nenhum furto paga com a vida”, lamentou Silvia.

A defesa de Vinicius ainda não se manifestou publicamente sobre o julgamento.