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Poluentes contaminam animais de águas profundas no Brasil: estudo revela riscos

Poluentes contaminam animais de águas profundas no Brasil: estudo revela riscos

Impacto de Poluentes no Mar Profundo Brasileiro – Microplásticos e outros poluentes foram detectados em sedimentos, peixes e invertebrados nas águas profundas do Brasil, entre 400 e 1.500 metros abaixo da superfície, de acordo com estudo publicado no Marine Pollution Bulletin. A pesquisa foi realizada por pesquisadores do IO-USP (Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo) e do Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), utilizando amostras coletadas na Bacia de Santos, a cerca de 140 quilômetros da costa.

A investigação revelou a presença de microplásticos, que são fragmentos de plástico com menos de 5 milímetros, além dos POPs (poluentes orgânicos persistentes) no mar profundo, ambiente marinho a partir de 200 metros de profundidade. Gabriel Stefanelli-Silva, primeiro autor do estudo, enfatiza que esta pesquisa é um passo importante para entender a presença desses poluentes na região. O desafio agora é determinar a origem desses compostos e avaliar o impacto na fauna de profundidade.

Tipos de Poluentes Identificados

Duas categorias de POPs foram analisadas: PCBs (bifenilas policloradas), que atuam como isolantes elétricos, e PBDEs (éteres difenílicos polibromados), conhecidos como retardantes de chamas. Os PCBs foram detectados em sedimentos e ambos os tipos foram encontrados nos peixes, incluindo espécies como o Parasudis truculenta, Hoplostethus occidentalis, Coelorinchus marinii e Neoscopelus macrolepidotus.

As amostras foram obtidas durante dois cruzeiros do navio oceanográfico Alpha Crucis da USP, que coletou dados para diferentes estudos em setembro e novembro de 2019. A variedade de peixes estudada evidencia a complexidade da contaminação por poluentes na fauna marinha.

Os microplásticos são fragmentos que variam de 1 micrômetro até 5 milímetros; devido à poluição e descarte inadequado, eles podem contaminar alimentos e água, chegando ao organismo humano • Svetlozar Hristov/GettyImages

Microplásticos e Organismos Marinhos

A análise, além de buscar POPs nos sedimentos e peixes, se concentrou na presença de microplásticos em invertebrados. Entre as nove espécies analisadas, o pepino-do-mar, Deima validum, apresentava a maior concentração de microplásticos em seu sistema digestório. Stefanelli-Silva observa que as partículas de poluição plástica, mesmo descartadas na costa, eventualmente chegam ao mar profundo. Animais filtradores e detritívoros no fundo do mar estão mais propensos a ingerir microplásticos, o que evidencia a gravidade da poluição na cadeia alimentar.

Cinco tipos de fibras identificadas foram categorizadas como microplásticos, incluindo polímeros utilizados na indústria têxtil, como poliamida e poliacrilonitrila. Outros polímeros encontrados pertencem ao poliestireno e à poliariletercetona, que têm diversas aplicações. Além disso, os pesquisadores identificaram polissulfeto, uma borracha sintética que poderia ter origem nas atividades da indústria offshore na Bacia de Santos, onde atualmente há cinco plataformas operacionais, com seis novas previstas até 2027.

Os pesquisadores seguiram um protocolo rigoroso para evitar contaminações nas amostras, utilizando roupas e instrumentos de análise livres de fibras sintéticas, garantindo que as superfícies e o ambiente estivessem livres de microplásticos.

A Importância do Estudo do Mar Profundo

Paulo Sumida, orientador do projeto e coordenador do LAMP (Laboratório de Ecologia e Evolução de Mar Profundo) do IO-USP, ressalta que a pesquisa do mar profundo é essencial para entender a extensão dos impactos provocados pelas atividades humanas. Segundo ele, o acesso e o custo elevados de pesquisas nessa área tornam o monitoramento desafiador, mas a presença de microplásticos e poluentes persistentes reforça que esses ambientes não estão tão distantes das pessoas quanto se imagina.

O estudo é parte do projeto “Diversidade e evolução de peixes de oceano profundo (DEEP-OCEAN)”, apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa Biota, coordenado por Marcelo Roberto Souto de Melo, professor do IO-USP. Os pesquisadores indicam que este levantamento inicial necessita de investigações profundas e adicionais no futuro, para compreender melhor a dimensão desse problema.

Anteriormente, Stefanelli-Silva, Sumida e outros pesquisadores realizaram uma pesquisa que analisou animais da Antártica entre 1984 e 2016, onde encontraram registros da presença de microplásticos na região. Durante esta pesquisa, uma fibra de microplástico foi identificada nas vísceras de um crustáceo pequeno coletado em 1986, tornando-se um dos registros mais antigos dessa contaminação.

*Sob supervisão de Carolina Figueiredo

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