São Paulo

Problemas de pele afetam crianças que usam tecnologias para diabetes

O uso contínuo de tecnologias como sensores de glicose e bombas de insulina tem trazido à tona questões importantes sobre a saúde da pele em crianças e adolescentes com diabetes, em especial na forma tipo 1. Segundo uma pesquisa publicada na revista Hormone Research in Paediatrics, envolvendo dados de 22 centros ao redor do mundo, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo, foi uma das instituições que participou deste estudo.

O trabalho acompanhou 1.719 crianças e adolescentes durante quatro semanas. Os resultados revelaram que 52% dos usuários de bomba de insulina apresentaram problemas de pele, enquanto 30% dos pacientes com sensores de glicose também enfrentaram esse desafio. Entre os participantes, 9% tiveram eczema, uma inflamação na pele, nas áreas onde os dispositivos foram aplicados.

A grande maioria, cerca de 95%, era diagnosticada com diabetes tipo 1, a forma mais prevalente da doença na infância e adolescência. Neste tipo, o organismo não produz insulina, hormônio crucial para a regulação da glicose no sangue, exigindo monitoramento e tratamento constantes com aplicações diárias. Apesar do crescimento dos casos de diabetes tipo 2 em crianças devido à obesidade e sedentarismo, o tipo 1 ainda é o mais comum entre essa faixa etária.

Benefícios e desafios da tecnologia no controle do diabetes

De acordo com a endocrinologista pediátrica Mariana Zorron, do Hospital de Clínicas da Unicamp, os dispositivos tecnológicos como bombas de insulina e sensores de glicose são indicados principalmente para pacientes com diabetes tipo 1. Eles possibilitam um controle glicêmico mais eficaz, redução de episódios de hipoglicemia e melhora na qualidade de vida. “Essas tecnologias são consideradas padrão-ouro de cuidado por diretrizes internacionais”, acrescenta a especialista. Contudo, a escolha por esses métodos deve ser individualizada, levando em conta idade, perfil clínico e suporte familiar.

Esses dispositivos ajudam a manter a hemoglobina glicada em níveis adequados, o que, por sua vez, reduz o risco de complicações relacionadas ao diabetes. As endocrinologistas pediátricas, incluindo Lindiane Gomes Crisostomo, do Einstein Hospital Israelita, observam que essas inovações melhoram significativamente a qualidade de vida dos pacientes, simplificando o manejo da doença e aumentando a adesão ao tratamento.

Diversidade no acesso aos tratamentos

Embora os dispositivos tecnológicos ofereçam benefícios comprovados, o estudo também ressalta as desigualdades de acesso no Brasil. Atualmente, muitas das tecnologias não são totalmente custeadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Embora os sensores de glicose tenham começado a ser incluídos em alguns serviços públicos especializados, a grande maioria das bombas de insulina ainda depende de processos judiciais ou programas específicos para serem acessadas.

Complicações dermatológicas associadas ao uso de dispositivos

Enquanto as tecnologias auxiliam no controle da doença, o surgimento de lesões cutâneas é uma preocupação real. O estudo apontou que os usuários de bomba de insulina frequentemente enfrentam cicatrizes e lipodistrofias, que são alterações do tecido adiposo sob a pele. Crianças com xerose cutânea ou queratose pilar, que tornam a pele mais seca, aumentam de duas a cinco vezes o risco de desenvolver complicações dermatológicas.

A médica Lindiane Crisostomo observa que a insulina é um medicamento injetado em locais que podem ter um pH diferente da pele, o que pode causar inflamações. A pele seca já é naturalmente mais vulnerável a lesões, e não são necessariamente os dispositivos que causam o problema, mas os adesivos e a inserção repetida do cateter que contribuem para essa condição.

Na maioria dos casos, as lesões são reversíveis e não levam a complicações sérias, mas não devem ser subestimadas, pois podem impactar negativamente o tratamento. “Lesões de pele podem comprometer a eficácia dos dispositivos, prejudicando tanto a administração de insulina quanto a precisão da leitura dos níveis de glicose”, explica Zorron. Embora infecções sejam raras, elas são uma possibilidade a ser considerada.

Em geral, as lesões não resultam na interrupção do uso dos dispositivos, mas em algumas situações, a troca temporária do local de aplicação é necessária até que a pele se recupere. Medidas como hidratação intensiva, rodízio dos locais de aplicação, e o uso de barreiras protetoras são recomendadas pelos profissionais.

Os sinais de alerta para as lesões incluem vermelhidão persistente, coceira intensa, feridas, secreção e endurecimento da pele. As recomendações incluem manter a pele limpa e bem hidratada antes da aplicação dos dispositivos e buscar assistência médica se houver surgimento de lesões.

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