A culinária paulistana, tão marcada pela diversidade, tem raízes profundas plantadas muito antes dos mercados municipais, dos bares famosos e dos restaurantes premiados. A série especial Memórias Negras, exibida no SP2 a partir desta segunda-feira (17), coloca essa ancestralidade no centro da narrativa, revisitando a contribuição das mulheres negras que, desde o século XIX, moldaram sabores, práticas e economias que permanecem vivas na capital paulista.
Antes que São Paulo se transformasse em metrópole, as ruas eram palco do empreendedorismo das quitandeiras e ganhadeiras — mulheres negras livres ou escravizadas que encontravam na venda de alimentos uma forma de sobrevivência, autonomia e, muitas vezes, de conquista da própria liberdade. De seus tabuleiros saíam quitutes que alimentavam comunidades inteiras e movimentavam a economia local. Para muitas delas, o trabalho rendia bens, joias e até o valor necessário para comprar a sonhada alforria, permitindo que algumas retornassem ao continente africano e reconstruíssem a vida.
Segundo Patty Durães, pesquisadora de práticas alimentares, essas histórias não são apenas registros acadêmicos, mas memórias transmitidas de geração em geração. Ela conta que cresceu entre feiras, mercados e quitandas, cercada por ingredientes e modos de cozinhar profundamente ligados à cultura afro-brasileira. “Na minha família, festa sempre foi sinônimo de alguém cozinhando. A comida era protagonista da celebração”, afirma. Para ela, a ancestralidade vive no cotidiano, no cuidado com o preparo e no vínculo afetivo que atravessa cada receita.
O legado também aparece na trajetória de Maria Conceição Oliveira, gastróloga que se tornou referência no estudo da culinária afro-brasileira. Aos 50 anos, ela decidiu transformar em profissão aquilo que por décadas viveu dentro de casa: os pratos ensinados pela avó, pela mãe, e pelas tias de terreiro. O mergulho acadêmico fez com que ela reconhecesse sua história como peça fundamental da formação cultural brasileira. “A pós-graduação me virou do avesso. Para entender a minha cultura, eu tenho que entender as outras”, relata. Hoje, Maria Conceição é uma das principais vozes que defendem a valorização da comida como memória e como identidade.
Ao longo da semana, Memórias Negras percorre diversos cantos de São Paulo para mostrar como essa herança segue viva. A série visita quintais da periferia onde ervas, folhas e técnicas antigas resistem; acompanha cozinheiras e chefs negros que reinterpretam tradições; e mergulha nos terreiros, onde o alimento é também parte do sagrado, carregado de simbolismos e rituais.
Mais do que resgatar receitas, o especial revela que a culinária afro-brasileira sustenta uma história de resistência, afeto, pertencimento e criatividade. Uma história construída, sobretudo, pelas mulheres negras que transformaram São Paulo com seu saber, seu trabalho e seu sabor — e que seguem, geração após geração, reafirmando que comer também é lembrar, celebrar e sobreviver.