São Paulo

Site que vende “encontros estilo dorama” em SP vira alvo de alerta após suspeita de exploração sexual

Um site que promete encontros românticos “iguais aos doramas”, oferecendo passeios em São Paulo com homens apresentados como coreanos, passou a ser investigado pelo Consulado Geral da Coreia do Sul e pela Associação Brasileira dos Coreanos. As instituições enxergam indícios de exploração sexual, especialmente após descobrirem que o responsável pela página, o japonês Rikito Morikawa, de 23 anos, convidou jovens coreanos solteiros a participar de um suposto “projeto” voltado a mulheres brasileiras fãs da cultura sul-coreana.

O site, chamado Kdramadate, está online há pelo menos dois meses e anuncia experiências que simulam cenas de séries asiáticas, oferecendo desde sessões de fotos até passeios românticos em pontos turísticos da capital paulista, como o Parque Ibirapuera. A apresentação descreve detalhadamente a proposta: o cliente viveria momentos “como em um K-drama”, com direito a frases sussurradas ao estilo dos protagonistas de séries coreanas.

A página comercializa quatro pacotes diferentes: uma experiência íntima em motel ou residência, um roteiro por cafeterias coreanas do Bom Retiro, um jantar em churrascaria tradicional e um passeio pelo Ibirapuera. O site informa que os encontros – exceto os íntimos – ocorreriam em locais públicos, podendo ser agendados por WhatsApp. Valores não são divulgados, mas prints enviados ao consulado mostram Morikawa oferecendo uma hora de encontro íntimo por R$ 70, ou três horas por R$ 170.

As fotos usadas na divulgação exibem um casal realizando supostos passeios do serviço, mas a apuração do g1 revela que as imagens pertencem ao perfil “Oh My Oppa”, que atuava como guia turístico na Coreia do Sul e não está mais ativo desde 2020. Também há depoimentos de supostos clientes descrevendo a experiência como “um sonho de dorama”.

A movimentação em torno do site começou após denúncias chegarem à Associação Brasileira dos Coreanos, que rapidamente alertou o consulado. A entidade afirma que fãs da cultura coreana notaram irregularidades na apresentação do serviço e relataram o caso. Ambos os órgãos visitaram o endereço divulgado pelo site como sendo a sede da empresa, constatando que o local era, na verdade, o Centro Cultural de Hiroshima – que nega qualquer ligação com o projeto. Após ser notificado extrajudicialmente, Rikito alterou o endereço para a Vila Carrão, Zona Leste.

Segundo o advogado do consulado, Rafael Kang, jovens descendentes de coreanos relataram ter recebido convites de Rikito para participar do projeto, inclusive oferecendo encontros íntimos por até R$ 700. Alguns dos rapazes teriam sido procurados por mensagens ou até ligações telefônicas, e foram escolhidos por apresentarem características associadas ao padrão cosmético dos atores coreanos. Há relatos de que outros jovens não-coreanos teriam aceitado participar do serviço.

A delegada Nadia Aluz, da 2ª Delegacia de Defesa da Mulher, reforça que prostituição em si não é crime no Brasil, mas exploração sexual – quando uma pessoa lucra com o serviço sexual de outra – é ilegal e deve ser investigada. Para as entidades coreanas, a iniciativa se apoia em estereótipos e na grande popularidade do K-pop e dos doramas no Brasil para atrair mulheres, distorcendo e comercializando a imagem da comunidade coreana.

O consulado afirmou que seguirá reunindo informações e deve encaminhar o caso à polícia e ao Ministério Público. Até o momento, nem Polícia Civil nem MP registram denúncias formais. Já o Consulado do Japão declarou que não recebeu relatos envolvendo cidadãos japoneses recrutados para esse tipo de trabalho.

Nas redes sociais, Rikito se apresenta como modelo internacional, fluente em quatro idiomas e apaixonado pelo Brasil, descrevendo-se como alguém que “traz a magia dos doramas para a vida real”. O site Kdramadate, no entanto, não aparece citado em seus perfis, que não são atualizados desde setembro.