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Um ano após o assassinato do delator do PCC, líderes da execução seguem foragidos com apoio do Comando Vermelho

Um ano após o assassinato do corretor de imóveis Antônio Vinicius Gritzbach, conhecido como “delator do PCC”, o caso continua a expor conexões profundas entre facções criminosas e agentes públicos. As investigações da Polícia Civil de São Paulo revelam que os mandantes da execução, ocorrida no Aeroporto Internacional de Guarulhos em novembro de 2024, receberam proteção do Comando Vermelho (CV) em comunidades do Rio de Janeiro.

Nos últimos meses, as forças policiais monitoraram ao menos dois acusados de envolvimento direto no crime: Kauê Amaral, apontado como o “olheiro” que indicou o momento em que a vítima deixou o saguão do aeroporto, e Emílio Carlos Gongorra, o “Cigarreira”, identificado como um dos mandantes da ação. Ambos foram flagrados por drones na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha — área dominada pelo CV —, onde contavam com proteção armada e forte estrutura do tráfico.

As imagens registradas mostraram Kauê em uma laje com piscina, circulando de forma tranquila, enquanto homens fortemente armados controlavam o acesso à residência e vigiam o entorno. Segundo os investigadores, as condições do local tornavam praticamente impossível qualquer tentativa de captura, já que as vias estreitas impediam a passagem de veículos blindados.

“Cigarreira”, por sua vez, teria fretado um avião particular de Jundiaí (SP) para o Rio de Janeiro na véspera da execução e, desde então, encontra-se foragido. A Polícia Civil paulista confirmou que dois drones usados na operação foram abatidos por criminosos durante o monitoramento. O paradeiro tanto dele quanto de Kauê e de Diego Amaral, o “Didi”, outro suposto mandante, permanece desconhecido. Nenhum deles constituiu defesa no processo.

O assassinato de Gritzbach, que retornava de Maceió (AL) trazendo joias em sua bagagem, chocou o país pela ousadia: o corretor foi fuzilado em plena tarde, na saída do terminal 2 do maior aeroporto da América do Sul. Um motorista de aplicativo foi morto por acaso, e outras duas pessoas ficaram feridas.

O caso, tratado como uma execução cinematográfica, deu origem a uma série de investigações que desmantelaram esquemas de corrupção policial e de lavagem de dinheiro ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Documentos reunidos em 486 páginas do relatório final indicam o envolvimento de 27 policiais civis e militares com o crime organizado.

De acordo com o inquérito, o homicídio foi motivado por vingança, após a morte de Anselmo Santa Fausta, o “Cara Preta”, traficante do PCC executado em São Paulo. Três policiais militares foram apontados como executores e já estão presos, enquanto outros três suspeitos seguem foragidos.

O “caso Gritzbach” tornou-se um divisor de águas nas investigações sobre as relações entre o PCC e o CV, revelando como as facções atuam de maneira articulada em diferentes estados e como se beneficiam de redes de proteção que envolvem agentes públicos e empresários. Um painel montado no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) reúne fotos, documentos e conexões para rastrear todos os envolvidos. Mesmo após um ano, o crime continua a simbolizar a complexa teia de corrupção, poder e violência que sustenta o crime organizado no Brasil.